quarta-feira, 6 de abril de 2011

PELO TELEFONE - PRIMEIRO SAMBA GRAVADO

Pelo Telefone, o primeiro samba

Primeira composição classificada como samba a alcançar o sucesso, "Pelo Telefone" marca o início do reinado da canção carnavalesca. É a partir de sua popularização que o carnaval ganha música própria e o samba começa a se fixar como gênero musical. Desde o lançamento, quando apareceram vários pretendentes à sua autoria, e mesmo depois, quando já havia sido reconhecida sua importância histórica, o "Pelo Telefone" seria sempre objeto de controvérsia, tornando-se uma de nossas composições mais polêmicas em todos os tempos.


Quase tudo que a este samba se refere é motivo de discussão: a autoria, a afirmação de que foi o primeiro samba gravado, a razão da letra e até sua designação como samba. Todas essas questões, algumas irrelevantes, acabaram por se integrar à sua história, conferindo-lhe mesmo um certo charme. "Pelo Telefone" tem uma estrutura ingênua e desordenada: a introdução instrumental é repetida entre algumas de suas partes (um expediente muito usado na época) e cada uma delas tem melodias e refrões diferentes, dando a impressão de que a composição foi sendo feita aos pedaços, com a junção de melodias escolhidas ao acaso ou recolhidas de cantos folclóricos.

Outra versão, relatada por Donga a Ary Vasconcelos e ao jornalista E. Sucupira Filho, é a de que "Pelo Telefone" teria surgido de uma estrofe a ele transmitida por um tal Didi da Gracinda, elemento ligado ao grupo de Hilário Jovino. Já Mauro de Almeida, que parece nunca ter-se preocupado em afirmar sua participação na autoria, declarou, em carta ao jornalista Arlequim, ser apenas o "arreglador" dos versos, o que corresponderia à verdade. "Pelo Telefone" foi lançado em discos Odeon, em dezembro de 1916, simultaneamente pelo cantor Bahiano (foto) e a Banda da Casa Edison.


Primeiro samba?


Em 1917, o samba Pelo Telefone se transformou no marco inicial da história fonográfica daquele gênero musical. Historiadores, porém já registraram, em suas pesquisas, gravações anteriores que podem ser reconhecidas como samba e que comprovadamente foram gravadas antes da composição assinada pela dupla Donga/Mauro de Almeida. O sucesso comercial de Fred Figner e sua Casa Edison, no Rio de Janeiro, provocou o aparecimento de concorrentes no Brasil inteiro e uma variedade enorme de selos fonográficos surgiu. A maioria de vida curta, mas que acabou por contribuir culturalmente com a música popular brasileira e influir na instalação da indústria fonográfica no país. A gravadora Odeon, por exemplo, que registrou o chamado samba pioneiro, antes dele já havia gravado, na série lançada entre 1912 e 1914, Descascando o pessoal e Urubu malandro, classificados como sambas no próprio catálogo da fábrica. Na série de 1912 a 1915 consta A viola está magoada de Catulo da Paixão Cearense e interpretada por Bahiano e Júlia Martins, além de Moleque vagabundo de Lourival Carvalho, também identificados como samba. Pelo Telefone tem o número de série 121313, mas anteriores a ele são ainda Chora, Chora, Choradô (121057), cantado por Bahiano, Janga (121165), com o Grupo Paulista, e Samba Roxo (121176), com Eduardo das Neves. O selo Columbia editou série entre 1908 e 1912, aparecendo nela como “samba” a gravação Michaella, interpretada por Bartlet; Quando a Mulher Não Quer, com Arthur Castro, e No Samba, gravado por Pepa Delgado e Mário Pinheiro. A Favorite Record gravava na Europa para a Casa Faulhaber do Rio de Janeiro, entre 1910 e 1913, e em seu catálogo se encontra a gravação Samba - Em Casa de Baiana, com o Conjunto da Casa Faulhaber, identificada na abertura como “samba de partido-alto”. O disco tem o título simples de Samba, sem indicação de intérprete ou autoria. O selo Phoenix também pertencia à família Figner. Gravou de 1914 a 1918 para a Casa Edison de São Paulo.

Os sambas que nele aparecem são anteriores a 1915, ano da gravação 70.711(Flor do Abacate), como provam suas numerações: Samba do Urubu (70.589), com o Grupo do Louro, Samba do Pessoal Descarado (70.623), com o Grupo dos Descarados, Vadeia Caboclinha (70.691), com o Grupo Tomás de Souza, e Samba dos Avacalhados (70.693), com o Grupo do Pacheco, coro e batuque. Da mesma maneira como existem dúvidas quanto à verdadeira autoria de Pelo Telefone, não se pode concluir com inteira certeza qual o primeiro samba realmente gravado.


A história oral menciona vários autores para o samba Pelo Telefone, mas quando Donga fez seu registro na Biblioteca Nacional omitiu todos declarando ser seu único compositor. As primeiras partituras, ainda na ortografia da época, que grafava Telephone, exibiam apenas o nome de Donga. A grita que se seguiu não teve muitos resultados, mas pelo menos serviu para que Mauro de Almeida (foto) fosse reconhecido como um dos parceiros. O Peru dos Pés Frios, como era conhecido o jornalista carnavalesco, aparece aqui em raríssima foto, mesmo porque faleceu pouco tempo depois da gravação do samba, ficando todas as luzes apenas sobre Donga, que delas sempre soube tirar proveito pessoal.


O sucesso cercou Pelo Telefone de aspectos os mais variados, fugindo da simples conseqüência musical, de cair na preferência popular, no assobio das calçadas e na cantoria das festinhas de subúrbio. Logo um sem-número de pais-da-criança apareceu, cada um puxando a brasa para sua sardinha, todo mundo ignorando a iniciativa de Donga (foto ao lado) em registrar oficialmente sua autoria na Biblioteca Nacional.


Como se sabe, o samba vinha sendo cantado na casa de Tia Ciata de maneira informal, como partido alto com a participação da dona da casa, emérita partideira que com certeza introduziu nele seus improvisos, o mesmo fazendo seu genro Mestre Germano e o "ranchista" Hilário Jovino.


Da cantoria, lá pelo ano de 1916, participavam também Donga, o jornalista Mauro de Almeida - a quem Almirante credita a autoria indiscutível do samba -, João da Mata, o dono do refrão, e o conflituoso Sinhô, que como autor da frase "samba é como passarinho, está no ar, é de quem pegar", evidentemente tentou também se apossar da paternidade da novidade. Ironizando a atuação de Aurelino Leal, o novo chefe de policia do Rio de Janeiro, o samba teve seus versos fixados por Mauro de Almeida, que nem assim foi reconhecido como co-autor no registro da Biblioteca Nacional.


Cantado em público pela primeira vez (segundo Almirante) no Cinema Teatro Velo, à rua Haddock Lobo, na Tijuca, despertou de imediato a cobiça alheia e - com razão ou sem ela - contestações quanto à autoria de Donga (foto ao lado) pipocaram de todos os lados. A principal veio de Tia Ciata, criando uma briga que jamais chegou à reconciliação, com um anúncio publicado no Jornal do Brasil garantindo que no Carnaval de 1917, na avenida Rio Branco, seria cantado o "verdadeiro tango Pelo Telefone dos inspirados carnavalescos João da Mata, o imortal Mestre Germano, a nossa velha amiguinha Ciata, o bom Hilário, com arranjo do pianista Sinhô, dedicado ao falecido repórter Mauro", seguindo-se a letra com o nome de Roceiro, denunciando Donga nas entrelinhas:

"Pelo telefone/A minha boa gente / Mandou avisar / Que meu bom arranjo / Era oferecido / Para se cantar - Ai; ai, ai / Leve a mão na consciência, / Meu bem / Ai, ai, ai / Mas porque tanta presença / meu bem? - O que caradura / De dizer nas rodas / Que esse arranjo é teu / E do bom Hilário / E da velha Ciata / Que o Sinhô escreveu - Tomara que tu apanhes / Para não tornar a fazer isso, / Escrever o que é dos outros / Sem olhar o compromisso".

Não faltaram também os aproveitadores, que na esteira do êxito da gravação de Bahiano correram atrás dos lucros que se imaginava para os autores de Pelo Telefone (Mauro de Almeida jamais recebeu um tostão de direitos...). Carlos Lima editou Chefe da Folia no Telefone; J. Meira registrou Ai, Si A Rolinha Sinhô, Sinhô e Maria Carlota da Costa Pereira se apresenta como autora de No Telefone, Rolinha, Baratinha & Cia.



No dia 20 de outubro de 1916, Aureliano Leal, chefe de polícia do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, determinou por escrito aos seus subordinados que informassem "antes pelo telefone" aos infratores, a apreensão do material usado no jogo de azar. Imediatamente o humor carioca captou a comicidade do episódio, que ao lado de outros foi cantado em versos improvisados nas festas de Tia Ciata e registrado rapidamente por Donga em seu nome, na Biblioteca Nacional. É lógico que os versos "oficiais" eram diferentes daqueles que ridicularizavam o chefe de polícia. Sua versão popular, a que corria na boca das ruas dizia:

A versão do povo

"O chefe da polícia / Pelo telefone / Mandou avisar / Que na Carioca / Tem uma roleta /Para se jogar /Ai, ai, ai /O chefe gosta da roleta,/ Ô maninha / Ai, ai, ai / Ninguém mais fica forreta / É maninha. / Chefe Aureliano, / Sinhô, Sinhô, / É bom menino, / Sinhô, Sinhô, / Prá se jogar,/ Sinhô, Sinhô, / De todo o jeito, /Sinhô, Sinhô, / O bacará / Sinhô, Sinhô, / O pinguelim, / Sinhô, Sinhô, / Tudo é assim".


A letra registrada por Donga, que passou a ser conhecida como original e aparece nas gravações até hoje, é alongada, homenageando o "Peru", o jornalista Mauro de Almeida, co-autor da obra, e o "Morcego", Norberto do Amaral Júnior, conhecido no Clube dos Democráticos. Incorpora também elementos do folclore nordestino:


"O chefe da folia / Pelo telefone / Manda avisar / Que com alegria / Não se questione / Para se brincar. Ai, ai, ai, / Deixa as mágoas para trás / Ó rapaz! /Ai, ai, ai, / Fica triste se és capaz / E verás Tomara que tu apanhes / Pra nunca mais fazer isso / Tirar amores dos outros /E depois fazer feitiço...Ai, a rolinha / Sinhô, Sinhô / Se embaraçou / Sinhô, Sinhô/ É que a avezinha / Sinhô, Sinhô / Nunca sambou / Sinhô, Sinhô,/ Porque esse samba, /Sinhô, Sinhô, / É de arrepiar, /Sinhô, Sinhô,/ Põe a perna bamba / Sinhô, Sinhô, / Me faz gozar, / Sinhô, Sinhô.O "Peru" me disse/ Se o "Morcego" visse / Eu fazer tolice,/ Que eu então saísse / Dessa esquisitice / De disse que não disse. Ai, ai, ai, / Aí está o canto ideal / Triunfal / Viva o nosso carnaval. / Sem rival. Se quem tira o amor dos outros / Por Deus fosse castigado / O mundo estava vazio / E o inferno só habitado.Oueres ou não / Sinhô, Sinhô, / Vir pro cordão / Sinhô, Sinhô / Do coração, / Sinhô, Sinhô. / Por este samba".




 

Fonte: A Canção no Tempo (Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello), História do Samba - Ed. Globo ( INTERNET)
Vídeo youtube: Seresta Moderna-

terça-feira, 1 de março de 2011

CANTINHO DA POESIA

                                                    Olá colegas do Coral Vozes da Cantareira,
                    a nossa coralista KELLY MEDEIROS está nos oferecendo três poesias de sua autoria

HOJE ME SINTO SÓ
E como só, sempre estou...
com o coração cheio de dor
teimando em falar de amor
entre papéis e versos
poemas bobos que restam
me sentindo tão só
e tão longe assim, estou?

Me perdoe se estou triste
é porque acho que mesmo que eu grite
a distância não me permite
sei que não pode me ouvir
algo me diz que não vai me ouvir
então mais só, sempre me sinto
e assim tão só, hoje sinto que estou.

Autora: KELLY MEDEIROS 


Através da música
Aquela música...
me faz relembrar os velhos tempos
me faz sentir saudades
me faz sorrir e até me faz chorar.

Quantas músicas não me fazem sentir
mas aquela é especial para mim
me lembra você e me faz sentir perto de ti.

mergulho nela todas as vezes que á ouço
e quantas vezes mais quero ouvir
e quantas músicas mais quero sentir
uma me lembra a vida
a outra me lembra você
e assim nunca vou esquecer
e sempre vou estar perto de ti.

autora: Kelly Medeiros

                                                       
Como a música

Você é como música
Foi composto para ser ouvido
sentido e também compreendido´
por este coração aqui sensível.

E sempre você vai assim tocando
tocando sempre mais a minha vida
quero te ver com toda a sintonia
ao som de toda a minha alegria.

Te quero ouvir sempre todos os dias
quero te ver com muita harmonia
Hoje não posso vê-lo aqui comigo
mas posso sentí-lo aqui dentro de mim.

AUTORA: KELLY MEDEIROS

Meu compositor, meu poeta                                                   
Coração de poeta
Pena que não posso estar contigo o tempo todo
trocando versos de amor e reflexão
experiências da vida e do destino
das alegrias, sonhos e solidão.

Palavras que acariciam o meu coração
composições que revelam toda a sua emoção
Que nem todas as pessoas com quem esteve, estiveram
e assim como se é grande, se é tão solidário.

É lindo o coração de um poeta
que ama o tempo todo
e que sentimos tão de perto
Que não se escreve para impressionar
escreve apenas para se aliviar
das armadilhas da vida
é o seu jeito de amar.
autora: Kelly Medeiros

Pôr do Sol
Já andei por lindos campos
e montanhas quis subir
Caminhei por grandes matas
cachoeiras, eu desci.

Cheguei até a beira da praia
mas a maré, veio a subir
Hoje estou num lindo oceano
mergulhada toda ali.

Queria ser um grande pássaro
e voar no céu mais lindo
Quero ser seu horizonte
o seu pôr do sol sorrindo.

autora: Kelly Medeiros


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

CARNAVAL - PARTE II



Na virada do século,  o Carnaval explodia com muita alegria, música e cores em todo o país.  No Recife, o frevo; na Bahia, o samba gingado dos negros; no Rio de Janeiro, o samba de Noel Rosa, Lamartine Babo, Ari Barroso, Herivelto Martins, Zé Keti, Heitor dos Prazeres, João de Barro , Assis Valente, Ataulfo Alves, Joubert de Carvalho, os irmãos Valença e outros.





Carmen Miranda - a " Brasilian Bombshell", nascida em Portugal, passou a ser símbolo não só da alegria e da descontração brasileira, mas do próprio Carnaval verde-amarelo, com sua graça e charme de baiana estilizada. Foi a artista brasileira que maior sucesso fez no exterior.
Pode ser considerada a legítima precursora do " Tropicalismo" , movimento cultural desenvolvido  por Caetano Veloso, Gilberto Gil e o grupo dos baianos, a partir do fim dos anos 60. Foi a primeira cantora a gravar " Taí " de Joubert de Carvalho, tendo sido este um de seus primeiros sucessos.



                                                                                TAÍ
                                                           Joubert de Carvalho - Marcha 1930

                                                        Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim
                                                        Ai, meu bem, não faz assim comigo, não
                                                        Você tem, você tem que me dar seu coração.
                                                        Esta estória de gostar de alguém
                                                        Já é mania que as pessoas têm
                                                        Se me ajudasse Nosso Senhor
                                                        Eu não pensaria mais em amor


Para avaliar a alma e o espírito  de nosso povo, nada melhor que a transcrição de algumas das letras românticas de sambas e marchinhas  de Carnaval, sem a malícia e o erotismo dos tempos de hoje:

                                                          O TEU CABELO NÃO NEGA
                                                         Lamartine Babo  - Marcha - 1932

                                                        O teu cabelo não nega, mulata
                                                        Porque és mulata na cor
                                                        Mas como a cor não pega, mulata,
                                                        Mulata eu quero o teu amor.


                                                                  LINDA LOURINHA
                                                            João de Barro - Marcha 1934

                                                         Lourinha, Lourinha
                                                         Dos olhos claros de cristal;
                                                         Desta vez, em vez da moreninha
                                                         Serás a rainha do meu Carnaval
                                                         Loura boneca
                                                         Que vens de outra terra
                                                         Que vens da Inglaterra
                                                         Que vens de Paris
                                                         Quero te dar
                                                         O meu amor mais quente
                                                         Do que o sol ardente
                                                         Deste meu país.



                                                              PIERRÔ APAIXONADO
                                                Noel Rosa e Heitor dos Prazeres - marcha 1936

                                                          Um pierrô apaixonado
                                                          Que vivia só cantando
                                                          Por causa de uma colombina
                                                          Acabou chorando, acabou chorando.


                                                                 CAMISA LISTADA
                                                             Assis Valente - samba 1938

                                                           Vestiu uma caimsa listada
                                                           E saiu por aí
                                                           Em vez de tomar chá com torrada
                                                           Ele bebeu parati
                                                           Levava um canivete no cinto
                                                           E um pandeiro na mão
                                                           E sorria quando o povo dizia:
                                                           - sossega leão! sossega leão!
                                                           Tirou o seu anel de doutor
                                                           Para não dar o que falar
                                                           E saiu dizendo: - eu quero mamar
                                                           Mamãe eu quero mamar.


                                                                   JARDINEIRA
                                                     Benedito Lacerda - Marcha -1939

                                                           Ó jardineira por que estás tão triste
                                                           Mas o que foi que te aconteceu?
                                                           Foi a camélia que caiu do galho
                                                           Deu dois suspiros e depois morreu.
                                                           Vem Jardineira,
                                                           Vem meu amor,
                                                           Não fique triste que este mundo é todo teu
                                                           Tu és muito mais bonita
                                                           Que a camélia que morreu.


                                                                        AURORA
                                                 Mario Lago e Roberto Roberti - marcha - 1941

                                                            Se você fosse sincera
                                                            Ô ô ô ô, Aurora
                                                            Veja só que bom que era
                                                            Ô ô ô ô, Aurora
                                                            Um lindo apartamento
                                                            Com porteiro e elevador
                                                            E ar refrigerado
                                                            Para os dias de calor.
                                                            Madame antes do nome
                                                            Você teria agora
                                                            Ô ô ô ô, Aurora.


                                                          CHIQUITA BACANA
                                            João de Barro e Alberto Ribeiro - marcha - 1949

                                                             Chiquita bacana
                                                             Lá da Martinica
                                                             Se veste com uma casca
                                                             De banana nanica
                                                             Não usa vestido
                                                             Não usa calção
                                                             Inverno pra ela
                                                             É pleno verão
                                                             Existencialista com toda razão
                                                             Só faz o que mandao o seu coração


                                                                DAQUI NÃO SAIO
                                                      Paquito e Romeu Gentil - marcha - 1950

                                                             Daqui não saio
                                                             Daqui ninguém me tira
                                                             Onde é que eu vou morar
                                                             O senhor tem paciência de esperar
                                                             Ainda mais com quatro filhos
                                                             Onde é que eu vou parar...


                                                                      CONFETE
                                                 David Nasser e Jota Junior - marcha - 1952

                                                             Confete.
                                                             Pedacinho de saudade
                                                             Ai, ai, ai, ai
                                                            Ao te ver na fantasia que usei
                                                            Confete, confesso que chorei.


                                                                      SACA-ROLHA
                                                    Zilda do Zé e Valdir Machado - marcha - 1954

                                                              As águas vão rolar,
                                                              Garrafa cheia eu não quero ver sobrar
                                                              Eu passo a mão no saca-saca-saca-rolha
                                                              E bebo até me afogar.
                                                              Deixe as águas rolar.
                                                              Se a polícia por acaso me prender
                                                              E na última hora me soltar
                                                              Eu passo a mão no saca-saca-saca-rolha
                                                              E bebo até o sol raiar.
                                                              Deixe as águas rolar.

Em seguida, as letras de três marchas-rancho, pelas quais o autor do texto acima Paulo José da Costa jr.
declarou nutrir especial amor, em razão do embalo gosto da música e das palavras sentidas da letra.

                                                                 PASTORINHAS
                                                       Noel Rosa e João de Barro - 1938

                                                              A Estrela Dalva no céu desponta
                                                              E a lua anda tonta com tamanho esplendor
                                                              E as pastorinhas pra consolo da lua
                                                              Vão cantando na rua lindos versos de amor.
                                                              Linda Pastora, morena da cor de Madalena
                                                              Tu não tens pena de mim
                                                              Que vivo tonto com o teu olhar
                                                              Linda Criança, tu não me sais da lembrança
                                                              Meu coração não se cansa
                                                              De sempre, sempre te amar


                                                                  BANDEIRA BRANCA
                                                               Max Nunes e Laércio Alves

                                                             Bandeira Branca, amor,
                                                             Não posso mais,
                                                             Pela saudade que invade
                                                             Eu peço paz,
                                                             Saudade - mal de amor, de amor
                                                             Saudade - dor que dói demais
                                                             Vem, meu amor,
                                                             Bandeira Branca,
                                                             Eu peço paz!




                                                                MÁSCARA NEGRA
                                                                     Zé Keti - 1967

                                                             Tanto riso, oh, tanta alegria
                                                             mais de mil palhaços no salão
                                                             Arlequim está chorando
                                                             Pelo amor da colombina
                                                             No meio da multidão.
                                                             Foi bom te ver outra vez,
                                                             tá fazendo um ano,
                                                             Foi no carnaval que passou,
                                                             Eu sou aquele pierrô
                                                             Que te abraçou,
                                                             Que te beijou, meu amor,
                                                             A mesma máscara negra
                                                             Esconde o teu rosto
                                                             E eu quero matar a saudade
                                                             Vou beijar-te agora,
                                                             Não me leve a mal,
                                                             Hoje é Carnaval.

                  Para encerrar este documentário sobre o Carnaval, segue o texto de Cassiano Ricardo:

                                                              CARNAVAL

Todas as árvores que moram na floresta ficaram surdas com tamanha festa.Numa algazarra enorme, os papagaios endomingados em seus fraques verdes, gritam coisas absurdas.Sapos, intanhas, pererecas, rãs e pipas tocam matracas pararacas. Um araponga louca dá o sinal para o começo do Carnaval.
E eis que começa de improviso a dança do tangará - pula pra lá, pula pra cá, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá.
Um punhado de insetos multicores brilha numa clareira, em meio dos bambus, com um confete esplendido de luz, jogado pelo sol ao cabelo das árvores.Bate o vento no bumbo  oco das porungas...Todo o chão da floresta é uma batalha de flores - trepadeiras azuis, presas de galho em galho, vão de uma fronde às outras, onde parasitas são laçarotes de fita.
O dia calvo em gargalhadas de ouro se explode. Um morro cheio de cupins, com o pente móvel do vento louco, está penteando os longos fios de sua barba de bode.No alto, uma planta caricata, de grande efeito pictórcio, nasce por cima de outras plantas e parece rodar como um carro alegórico que movelmente se desata numa chuva de prata.
Mas para terdes uma idéia exata desse estranho Carnaval, lembrai-vos que os cipós são serpentinas verdes numa trama infernal, e que a lua, por trás das trepadeiras, é uma cabeça arlequinal, que espia o Carnaval.

fonte: Meu São Paulo?... Nunca Mais! - Paulo José da Costa Jr. - Carnavais de outrora
fotos: Google



                                                    

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

CARNAVAL - PARTE I




Para esquecer a rotina ou as  mágoas da vida diária, respondendo a um profundo desejo humano de expansão e liberdade, os homens inventaram o Carnaval, que é a mais antiga e universal manifestação de catarse coletiva. Dos mais bárbaros e primitivos aos mais civilizados, os homens sempre se permitiram, durante alguns dias, explosões de alegria na forma de desenfreada e efêmera loucura, muitas vezes ocultando, atrás das máscaras e fantasias, a própria personalidade, para cometer as maiores extravagâncias.
O uso de máscaras nas grandes festas já era um costume conhecido dos egípcios e dos hindus, mas foi, provavelmente, nas famosas bacanais gregas e nas saturnais romanas que elas se popularizaram. Nestas festas, ressalvados seus conhecidos excessos, o Carnaval ganhou algumas características com que o conhecemos até hoje, mantidas as peculiaridades de cada país, de cada região e de cada época.
Na Idade Média, eram conhecidas diversas manifestações carnavalescas, como a " Festas dos Inocentes" e  a " Festa dos Loucos".  Na França, já na  Idade Moderna,  uma  das  festas mais curiosas era a "Companhia  da  Mãe  Louca",  constituída  de  pessoas consideradas mais sérias e respeitadas, como professores, médicos , advogados, quando eram feitas sátiras dos costumes e eram evidenciados os escândalos políticos em divertidas paródias.
São famosos pelo requinte e pela elegância os  carnavais  de  Nice,  Cannes e Veneza, este célebre pela alegria  e graça com que se espalhava pelas ruas, pelas praças e pelas gôndolas que percorriam os canais, repletas de mascarados  despreocupados e bem trajados. Por maior que fosse a alegria, reinava a elegância, o respeito e o romantismo.




                                                                  O ENTRUDO

O entrudo foi o precursor legítimo do Carnaval no Brasil. Já mencionado nas atas da Câmara de  São Paulo, do dia 13 de fevereiro de 1604, durava três dias, destinando-se às festas populares que precediam a Quaresma.  Os participantes do entrudo, mascarados, percorriam as ruas da cidade acompanhados por bandas de música. Utilizavam-se de bisnagas, laranjinhas e limões de cera, seringas de folha-de-flandres comportando dois litros do líquido. Limões e laranjinhas explodiam ao atingir o corpo dos incautos, que ficavam molhados como conteúdo das bolas de cera.
O carnaval paulista teve início  em 1857, no bairro da Liberdade, com o grupo OS ZUAVOS. Tal grupo foi organizado na chácara que havia entre as ruas Américo de Campos e Barão de Iguape.
Os bailes carnavalescos de então eram verdadeiras bacanais, com a participação numerosa de mulheres da vida.  Começavam, via de regra, às vinte e uma horas. À meia-noite, a orquestra tocava o demoníaco galope, que imitava o correr de um trem, com toda sorte de instrumentos musicais, inclusive sinos e matracas. Os participantes endoideciam de vez, soba a música estridente, a correria no salão, beijos e abraços sensuais.





O corso era a nota dominante do carnaval de rua. Utilizavam-se, predominantemente, os carros abertos, que havia em profusão na época. Quando fechados, eram todos eles dotados de pára-lamas, propiciando aos foliões neles se aboletarem. Outros cavalgavam os dois enormes faróis dianteiros. Costumava-se ainda abrir o porta-malas traseiro, onde dois ou três foliões se acomodavam. Ao todo, cada carro comportava na parte  externa, até onze participantes: três em cada pára-lama, três no porta-malas e dois nos faróis.
O fato de se acomodarem bem ou mal, nos pára-lamas e faróis, era totalmente irrelevante. Permaneciam poucos segundos acomodados em cada local do veículo, que parava seguidamente, para que os foliôes brincassem com os ocupantes dos carros que vinham em direção contrária. Utilizavam-se confetes coloridos e serpentinas multicores, cujos rolos se desfaziam, envolvendo o rosto das damas dos carros próximos. O lança-perfume era acionado com leveza no corpo da mulher cortejada. A marca mais popular era o Rodo Metálico. Trazia um encanto especial às festas, tendo, em si, um agradável cheiro de carnaval, bem diferente do cheiro de suor e cerveja dos carnavais de hoje. Era um delicioso refrigério no calor dos salões e dos corsos.  Ensejava abordagens galanteadoras e simpáticas, com seus inesperados e perfumados jatos gelados. Lamentavelmente, era também aspirado em grandes quantidades, transformando-se muitas vezes num vício perigoso, uma vez que era fabricado à base de éter, o que acarretava sérios riscos para a saúde pública. Sua comercialização foi proibida pelo presidente Jânio Quadros, em 1961.Além do confete, da serpentina e do lança-perume, os foliões utilizavam-se de instrumentos musicais de sopro  ou de percussão, como pistons, sax, pandeiros, reco-recos, chocalhos, tamborins, agogôs, que acompanhavam as músicas carnavalescas, entoadas com grande entusiasmo. E as máscaras negras ou douradas, usadas com moderação e charme, muitas vezes sem aderirem ao rosto.


O corso realizava-se por toda a Avenida Paulista, nas duas direções, descendo depois a Avenida Angélica até a Praça Marechal Deodoro. Dali retornava ao ponto de origem. O corso se fazia nas tardes e nas noites de carnaval, de sábado a terça-feira. Era um espetáculo cheio de encanto, de alegria contagiante e pureza. Havia também um corso muito animado no Brás, rivalizando com o da Avenida Paulista. Iniciava-se na Avenida Rangel Pestana e ia até o Largo São José do Belém.
O corso em carros conversíveis terminou depois de 1930, com o advento do carro sedã.
Além do carnaval de rua, havia o carnaval de salão. Clubes como Paulistano, Hípia, Harmonia, Pinheiros,Tietê e Espéria comemoravam as festas de Momo, com orquestras afinadas e ornamentações vistosas nos salões. Fantasias coloridas agitavam-se, embaladas pelo ritmo, cheias de plumas, lantejoulas, miçangas e vidrilhos, pulando e dançando, festejando um mundo de sonhos e alegria.



Os românticos Pierrôs, as volúveis Colombinas e os tristonhos Arlequins eram os personagens-símbolo do Carnaval. Faziam muito sucesso também as bonitas fantasias de odaliscas, mosqueteiros, toureiros, espanholas, piratas e havaianas.





Nos clubles, os cavalheiros que não se fantasiavam compareciam usando summer ou smoking e algumas mulheres trajavam elegantíssimos vestidos de noite.  Bermudas e camisetas? Nem pensar.
Os bailes públicos  realizavam-se no Odeon, tradicional cinema da rua da Consolação,  e no Municipal. O Odeon, durante os festejos de Momo unia a suas três salas, com três orquestras a tocar marchinas e sambas. Foi proibido o uso da máscara e, com isso, desapareceu o dominó. Nunca mais se ouviu a frase "você me conhece", com a máscara no rosto. Com o sumiço do dominó, diminuiram os arlequins e poli chinelos.



O Carnaval brasileiro teve início no Rio de Janeiro, há mais de século. A primeira música que se considerou carnavalesca, de autoria do ator Francisco Correia Vasques, data de 1869, baseada numa peça francesa, " Les Pompiers de Nanterre". Veio depois " Viva Zé Pereira", de domínio público, que integra o nosso cancioneiro. Teve esse nome em razão do apelido dada a um português festeiro, José Nogueira de Azevedo Paredes. Num dia de 1846, saiu ele com amigos pulando, tocando zabumba, cantando, estremecendo e agitando as ruas então tranquilas do Rio de Janeiro.
Outro grande sucesso foi a marchina "Ó Abre Alas", de Chiquinha Gonzaga, feita para o cordão Rosa de
Ouro, que saía num subúrbio do Rio, que seria cantada por multidões a partir de 1899.

                                                                   Ó abre alas
                                                                   que eu quero passar
                                                                   Ó abre alas
                                                                   que eu quero passar
                                                                   Eu sou da Lira
                                                                   Não Posso negar
                                                                   Eu sou la Lira
                                                                   não posso negar.
                                                                   Ó abre alas
                                                                    que eu quero passar
                                                                    Ó abre alas
                                                                    que eu quero passar
                                                                    Rosa de Ouro
                                                                    é que vai ganhar
                                                                    Rosa de Ouro
                                                                    é que vai ganhar

Depois que o Zé Pereira surgiu, cordões e blocos principiaram a se organizar para sair na rua.   Os negros passaram a participar, com seus cantos e danças de candomblé. Até intelectuais como José de Alencar e José do Patrocínio, misturavam-se à multidão para brincar o carnaval.
A moçoila pobre da favela gastava o salário de três meses para fazer a sua fantasia de rainha ou de princesa. Valia a pena o sacrifício, pois durante os dias do Reinado de Momo era ela figura de grande destaque, na passarela ou nos salões. Como porta-bandeira, abre-alas, rainha da bateria, passista ou figura de destaque atraía atenções, arrancava aplausos, enchendo o seu "ego" para os restantes trezentos e sessenta dias do ano.

fonte: Meu São Paulo? ... Nunca Mais! -Paulo José da Costa jr. - capítulo 5 - Carnavais de Outrora
fotos: google- imagens