terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ESCOLAS DE SAMBA CAMPEÃS- 1932 a 2012 - RIO/SÃO PAULO



FONTE: GOOGLE: ENCICLOPÉDIA WIKIPÉDIA
NOVA HISTORIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA - ABRIL CULTURA - 1979
CARNAVAL CARIOCA - 100 ANOS - EDIÇÃO CARAS EXTRA NR. 18

ESCOLAS DE SAMBA CAMPEÃS - RIO DE JANEIRO

ANO
ESCOLA
ENREDO
1932
Mangueira
Sorrindo
1933
Mangueira
Uma segunda-feira no Bonfim da Bahia
1934
Mangueira
República da Orgia
1935
Vai Como pode ( atual Portela)
O Samba dominando o Mundo
1936
Unidos da Tijuca
Sonhos Delirantes
1937
Visinha Faladeira
A Origem do Samba
1938
               Apuração não realizada

1939
Portela
Teste ao Samba
1940
Mangueira
Prantos, Pretos e Poetas
1941
Portela
Dez Anos de Glória
1942
Portela
A Vida do Samba
1943
Portela
Brasil, Terra da Liberdade
1944
Portela
Motivos Patrióticos
1945
Portela
Brasil Glorioso
1946
Portela
Alvorada do Novo Mundo
1947
Portela
Honra ao Mérito
1948
Império Serrano
Antonio Castro Alves
1949
Império Serrano (pela FBES)
Exaltação à Tiradentes

Mangueira  (pela UCES_
Apologia ao Mestre
1950
Império Serrano  (pela FBES)
Batalha Naval do Riachuelo

Mangueira (pela UCES)
Plano Salte –Saúde, Alimentação, Transporte e energia

Prazer da Serrinha (p/UGESB)


Unidos da Capela ( p/UGESB)

1951
Império Serrano (p/FBES)
Sessenta e um anos de República

Portela ( p/ UGESB)
A Volta do Filho Pródigo
1952
         Apuração não realizada

1953
Portela
As seis datas Magnas
1954
Mangueira
Rio de Janeiro de Ontem e de Hoje
1955
Império Serrano
Exaltação a Duque de Caxias
1956
Império Serrano
O Caçador de Esmeraldas
1957
Portela
Legados de D. João VI
1958
Portela
Vultos e Efemérides do Brasil
1959
Portela
Brasil, Panteon de Glórias
1960
Portela
Rio, a Capital Eterna

Mangueira
Glória ao Samba

Salgueiro
Quilombo dos Palmares

Unidos da Capela
Produtos e costumes da Nossa Terra

Império Serrano
Medalhas e Brasões
1961
Mangueira
Recordações do Rio Antigo
1962
Portela
Rugendas: Viagens pitorescas através do Brasil
1963
Salgueiro
Chica da Silva
1964
Portela
O segundo casamento de D. Pedro I
1965
Salgueiro
História do Carnaval Carioca
1966
Portela
Memórias de um Sargento de Milícias
1967
Mangueira
O Mundo Encantado de Monteiro Lobato
1968
Mangueira
Samba, festa de um povo
1969
Salgueiro
Bahia de Todos os Deuses
1970
Portela
Lendas e Mistérios da Amazônia
1971
Salgueiro
Festa para um Rei Negro
1972
Império Serrano
Alô, Alô, taí Carmem Miranda
1973
Mangueira
Lendas do Abaeté
1974
Salgueiro
O Rei de França na Ilha da Assombração
1975
Salgueiro
O Segredo das Minas do Rei Salomão
1976
Beija-Flor
Sonhar com Rei dá Leão
1977
Beija-Flor
Vovó e o Rei da Saturnália na corte Egípciana
1978
Beija-Flor
A criação do Mundo na tradição Nagô
1979
Mocidade Ind. Padre Miguel
O Descobrimento do Brasil
1980
Imperatriz
O que é que a Bahia tem?

Beija-Flor
O Sol da meia-noite, uma viagem ao país das maravilhas

Portela
Hoje tem marmelada!
1981
Imperatriz
O teu cabelo não nega ( só da Lalá)
1982
Império Serrano
Bum bum Paticumbum Prugurundum
1983
Beija-Flor
A grande constelação das estrelas negras
1984
Mangueira
Yes, nós temos Braguinha

Portela
Contos de Areia
1985
Mocidade Ind. Padre Miguel
Ziriguidum 2001 – Carnaval nas Estrelas
1986
Mangueira
Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira têm
1987
Mangueira
O Reino das Palavras, Carlos Drummond de Andrade
1988
Vila Isabel
Kizomba, a festa da raça
1989
Imperatriz  Leopoldinense
Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!
1990
Mocidade Ind. Padre Miguel
Vira, Virou, a Mocidade chegou
1991
Mocidade Ind. Padre Miguel
Chue...Chuá... As águas vão rolar
1992
Estácio de Sá
Paulicéia Desvariada – 70 anos de Modernismo
1993
Salgueiro
Peguei um Ita no Norte
1994
Imperatriz Leopoldinense
Catarina de Médicis na corte dos Tupinambôs e dos Tabajéres
1995
Imperatriz Leopoldinense
Mais vale um jegue que me carregue que um camelo que me derrube, lá no Ceará
1996
Mocidade Ind. Padre Miguel
Criador e Criatura
1997
Viradouro
Trevas! Luz!  A Explosão do Universo
1998
Mangueira
Chico Buarque da Mangueira

Beija-Flor
Pará – O mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-anu
1999
Imperatriz Leopoldinense
Brasil, mostra a tua cara em Theatrum Rerun  Naturalium Brasiliae
2000
Imperatriz Leopoldinense
Quem descobriu o Brasil foi seu Cabral do dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval.
2001
Imperatriz Leopoldinense
Cana Caiana, cana roxa, cana fita, cana preta, amarela, Pernambuco, quero vê descê o suco na pancada do ganzá
2002
Mangueira
Brasil com Z é pra cabra da peste – Brasil com s é nação do Nordeste

2003
Beija-Flor
O povo conta a sua história: Saco vazio não para em pé – A mão que faz a guerra, faz a paz
2004
Beija-Flor
Manôa, Manaus, Amazônia, Terra Santa... que alimenta o corpo equilibra a alma e transmite a paz
2005
Beija-Flor
O vento corta as terras dos Pampas. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Guarani. Sete povos na fé e na dor...Sete missões de amor
2006
Vila Isabel
Soy loco por ti América – A Vila canta a latinidade
2007
Beija-Flor
Áfricas: do Berço Real à Corte Brasiliana
2008
Beija-Flor
Macapabá: Equinócio Solar, Viagens Fantásticas no Meio do Mundo
2009
Salgueiro
Tambor
2010
Unidos da Tijuca
É Segredo!
2011
Beija-Flor
A Simplicidade de um Rei
2012
Unidos da Tijuca
O dia em que toda a realeza desembarcou na Avenida para coroar o Rei Luiz do Sertão.


ESCOLAS DE SAMBA CAMPEÃS - SÃO PAULO            
                                                   
ANO
ESCOLA
ENREDO
1950
Lavapés

1951
Lavapés

1952
Lavapés

1953
Lavapés

1954
Brasil de Santos

1955
Garotos do Itaim


Nenê de Vila Matide
Casa Grande e a Senzala
1956
Garotos do Itaim


Lavapés

1957
Unidos do Peruche

1958
Nenê de Vila Matilde
O Grito do Ipiranga
1959
Nenê de Vila Matilde
Chica da Silva
1960
Nenê de Vila Matilde
O despertar de um gigante
1961
Lavapés

1962
Unidos do Peruche

1963
Nenê de Vila Matilde
Enaltecendo uma raça
1964
Lavapés

1965
Nenê de Vila Matilde
O Mundo Encantado de Monteiro Lobato

Unidos do Peruche
IV Centenário do Rio de Janeiro
1966
Unidos do Peruche
Exaltação a Carlos Gomes
1967
Unidos do Peruche
Exaltação a São Paulo
1968
Nenê de Vila Matilde
Vendaval Maravilhoso
1969
Nenê de Vila Matilde
Com Recife antigo no coração
1970
Nenê de Vila Matilde
Paulicéia Desvairada
1971
Mocidade Alegre
São Paulo e seus carnavais
1972
Mocidade Alegre
São Paulo, trabalho, seresta e samba
1973
Mocidade Alegre
Odisséia de uma raça
1974
Camisa Verde e Branco
Uma certa nega Fulô
1975
Camisa Verde e Branco
Tropicália
1976
Camisa Verde e Branco
Atlântida e suas chanchadas
1977
Camisa Verde e Branco
Nairanã, a alvorada dos pássaros
1978
Vai-Vai
Na arca de Noel quem entrou não saiu mais
1979
Camisa Verde e Branco
Almôndegas de Ouro
1980
Mocidade Alegre
Embaixada de sonho e bamba
1981
Vai-Vai
Acredita se quiser
1982
Vai-Vai
Orun-Ayê O eterno amanhecer
1983
Rosas de Ouro
Nostalgia
1984
Rosas de Ouro
A velha academia berço de heróis
1985
Nenê de Vila Matilde
O dia em que o cacique rodou a baiana, ai ó!
1986
Vai-Vai
Do jeito que a gente gosta
1987
Vai-Vai
A volta ao Mundo em 80 minutos
1988
Vai-Vai
Amado Jorge, a história de uma raça brasileira
1989
Camisa Verde e Branco
Quem gasta tudo num dia, no outro assovia
1990
Camisa Verde e Branco
Dos Barões do café a Sarney, onde foi que eu errei?

Rosas de Ouro
Até que enfim... o sábado
1991
Camisa Verde e Branco
Combustível da Ilusão

Rosas de Ouro
De piloto de fogão a chefe da nação
1992
Rosas de Ouro
Non Ducor Duco, qual é a minha cara
1993
Camisa Verde e Branco
Talismã

Vai-Vai
Nem tudo que reluz é ouro
1994
Rosas de Ouro
Sapoti
1995
Gaviões da Fiel
Coisa boa é pra sempre
1996
Vai-Vai
A rainha, a noite tudo transforma
1997
X-9 Paulistana
Amazônia, dama do universo
1998
Vai-Vai
Banzai Vai-Vai
1999
Gaviões da Fiel
O Príncipe Encoberto ou a Busca de Dom Sebastião na ilha de São Luís do Maranhão

Vai-Vai
Nostradamus
2000
Vai-Vai
Vai Vai Brasil

X-9 Paulistana
Quem é você?
2001
Vai-Vai
O Caminho da Luz – A Paz Universal

Nenê de Vila Matilde
Voei, Voei, na Vila aportei, onde me deram uma coroa de rei
2002
Gaviões da Fiel
Xeque-Mate
2003
Gaviões da Fiel
As Cinco Deusas Encantadas na Corte do Rei Gavião
2004
Mocidade Alegre
Do Além-mar à Terra da Garoa, Salve Esta gente boa
2005
Império de Casa Verde
Brasil- Se Deus é por Nós, Quem será contra Nós?
2006
Império de Casa Verde
Do boi místico ao boi real . De Garcia D’Ávilla na Bahia ao Nelore – O  boi que come capim- A Saga da Pecuária no Brasil para o mundo
2007
Mocidade Alegre
Posso ser inocente, debochado, irreverente...afinal , sou o Riso dessa gente!
2008
Vai-Vai
Vai-Vai Acorda Brasil
2009
Mocidade Alegre
Da chama da razão ao Palco das Emoções... Sou máquina, Sou Vida...Sou coração pulsando forte na Avenida!!!
2010
Rosas de Ouro
Cacau: um grão precioso que virou chocolate, sem dúvida se transformou no melhor presente!
2011
Vai-Vai
A música venceu!
2012
Mocidade Alegre
Ojuobá – No Céu, os olhos do Rei... na Terra, a Morada dos Milagres... No coração, um Obá Muito Amado!

ESCOLAS DE SAMBA - TEXTO DE TÁRIK DE SOUZA


ESCOLAS DE SAMBA
Texto de Tárik de Souza  (década de 70)

O Movimento cultural conhecido por Escolas de Samba segue um trajeto sociologicamente claro.
Trata-se de um dos contingentes de mão-de-obra não especificada, de reduzido nível de escolaridade e escassa oportunidade profissional, reunido em torno do tema do carnaval, à margem da sociedade que o rejeita. À alternativa impraticável de uma guerra – de fato - contra os detentores do poder, os sambistas dispõem-se a conquistá-lo de forma superior, pela imposição de sua cultura e consequente admissão (ou readmissão) na sociedade que os segregara. Mais de meio século depois de iniciado esse movimento – a princípio de forma  tímida, sujeito a intensa repressão -, pode-se dizer que o samba venceu a batalha. Como diz um desses guerreiros, o venerável Xangô da Mangueira:
- “antigamente era preciso levar a ata de casa em casa e obrigar alguém a responsabilizar-se pela direção das escolas. Hoje, a eleição da diretoria é mais disputada que a presidência da República”. O sambista ganhou status e mesuras dos poderosos. No entanto, não se pode dizer que tenha deixar de sofrer baixas significativas.
A dominação cultural da classe média pelo sambista, de certo modo, é ilusória. As escolas foram obrigadas a falar um idioma diferente, a trocar o lúdico dos primeiros tempos pelo luxo de hoje. A utilizar esteticamente criadores de referencial classe média para filtrar seu natural “mau gosto”. A compactar o samba-enredo para torná-lo imediatamente cantável, como nos festivais. A submeter-se, em suma, ao regulamento, para uma conquista ordeira, pacífica – e recíproca. Nada de barbarismos, em última análise. Esse percurso, porém, está longe de ser simples, do ponto-de-vista estritamente cultural. Obrigados a digerir apressadamente, desde o Estado Novo, os compêndios da História do Brasil, os encarregados dos enredos acabaram motivando ao irreverente Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, a caricatura do Samba do Crioulo Doido. Afinal, eles estavam proibidos de tratar de seus próprios problemas cotidianos através do alto-falante de que dispunham. Revogado o presente, só o passado – cristalizado e inerte – seria admitido,  no irrecusável estilo exaltação. A Segunda Guerra Mundial, Prestes, O Cavaleiro da Esperança (lendário samba da Portela), e outros momentosos assuntos abordados pela cada vez mais potente emissora desse contingente social apartado, foram confinados ao menor auditório do samba de quadra e terreiro. Caracterizou-se, aí, a primeira censura estética exercida contra o grupo. Organizadas numa associação, protegidas por sua unidade e coesão, as escolas também foram obrigadas a transformar o samba-enredo em produto, com mercado certo, sob a exigência de gravação antecipada para execução nas rádios. A uniformização acabou sendo a consequência de tantas necessidades exigidas para um fio de música: obrigadas a tratar do enredo, obedecer o ritmo, enfiar um refrão associável, as alas dos compositores acabaram transformando essa modalidade musical na mais rígida peça da área do samba. E não seria incorreto chamar de ”peça” ao samba-enredo, visto que o desfile aproxima-se de uma ópera e aos músicos cabe subserviência a uma espécie de libreto tácito ou combinado, onde são muito raros os espaços para os improvisos. Enquanto as primeiras escolas eram caracterizadas pela indisciplina, pelo vai quem quer e como pode e pelo deixa falar que seus próprios nomes sugeriam, aos poucos foi triunfando o encadeamento e a disciplina. Das coreografias de Mercedes Baptista aos balés que lembram a sensaboria televisiva das vinhetas do programa Fantástico, da TV Globo.
A massa cultural da escola é, portanto, permeável às influências. Paradoxalmente, quanto mais cede de sua linguagem, menos forças obtém e  é obrigada a “importar” tantos “sambeiros” quantos forem necessários para descaracterizar sua estética muito particular, resultado de uma sabedoria artesanal transmitida pelas gerações da comunidade. Esse processo de desvirtuamento, no entanto, está longe de ser imperturbável. No auge da era do luxo, encabeçada pelo tricampeonato da Beija-Flor e sob o refrão de seu líder, Joãzinho
“quem gosta da pobreza é intelectual” Trinta,  surgiu a reação consciente e firme. Sambistas egressos das grandes agremiações (basicamente da Portela, uma das mais atingidas pela descaracterização) fundaram no longínquo subúrbio de Coelho Neto, em 1976, a Escola de Samba Quilombo. Como sugere a rebeldia do título, um quisto negro de resistência ao “embranquecimento” das escolas. Candeia, seu líder, falecido em 1978, iniciou um paciente trabalho de recuperação das origens e tradições dessas comunidades. Procurou atrair também os jovens contingentes negros da periferia que já se sentiam marginalizados pela “oficialização” do ambiente das escolas e seus preços altos, preferindo os bailões populares do Black Rio, ao ritmo de soul e coreografia importada. Da mesma forma, dentro do pacote enviado por James Brown & Cia., chegava ao Brasil o inconformismo black panther, a mão fechada erguida para o alto e a palavra de ordem “ I’m Black, I’m proud” (“Sou negro e me orgulho disso”), que já rareava nos estádios de ensaio das escolas, dominados por turistas nacionais e estrangeiros. De novo era a marginalização – desta vez, dentro de seus próprios redutos – que atacava a figura do sambista.  E o jovem da comunidade começou a tentar  tornar-se black a fim de – paradoxalmente – recuperar sua identidade. A Quilombo reagiu a esse princípio de êxodo com moderação, seguindo a esperança de Candeia, “o black de hoje pode ser o sambista de amanhã”. Paralelamente houve um movimento de valorização  e consulta às VELHAS GUARDAS de todas as escolas. Voltaram a ter voz ativa no samba, catedráticos encostados pelos computadores das novas diretorias, como CARTOLA, CARLOS CACHAÇA, XANGÔ e as Velhas Guardas da Portela e Império Serrano especialmente. E, a despeito de tudo, o conduto social e comunitário das escolas continua a fluir com energia e talento. E, não convém esquecer, ao compasso do resistente e inconfundível samba.

Fonte:
TÁRIK DE SOUZA
NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
ABRIL CULTURAL - 1979








ESCOLAS DE SAMBA – ORIGENS


ORIGENS

Nos carnavais da década de 20, a pobreza e a malandragem cariocas reuniam-se na Praça Onze para sambar. Dessa alegria, a curto prazo foram nascendo as escolas de samba, que, a partir de 1947, ganharam as avenidas, grandes palanques e novos espectadores. A Praça Onze deu caminho à Avenida Presidente Vargas, onde passaram a desfilar as grandes escolas. Nas imediações da antiga praça, resistiam as pequenas, relegadas ao III Grupo. Ainda se podia ouvir na segunda-feira de carnaval, o repique do samba, o baticum de magras baterias. Finalmente, o grande desfile do carnaval carioca, já na década de 70, trocou a Presidente Vargas pela Avenida Marquês de Sapucaí, desembocando onde fora a Praça Onze. É como se voltassem para ela, a cada ano. Os restos de um grande sonho consumido.

A PRIMEIRA ESCOLA DE SAMBA

DEIXA FALAR, do bairro do Estácio de Sá, foi a primeira escola de samba e deu origem à forma como o samba é cantado pelas escolas.
Fundada em 1928 por Ismael Silva, Nilton Bastos, Balaco, Brancura, Bide e outros “bambas”, a Deixa Falar teve vida curta. Em 1933 juntava-se ao Bloco União das Cores, dando origem ao Bloco Carnavalesco União do Estácio de Sá.



O CANTO PROFANO DE LINDAS MULATAS

Nos demais redutos de samba do Rio, desde meados da década de 20, vinha ocorrendo a fusão dos blocos de samba, que se multiplicavam mais notadamente na Favela, na área da Freguesia do Irajá ( do Engenho de Dentro até Bangu), em Mangueira e no Estácio.
E todos os blocos traziam em comum alguns traços fundamentais: a dolência no canto, a coreografia de andamento do grupo em forma de procissão e o ritmo animado por instrumentos de corda e de percussão de fácil domínio.
Essas marcas estavam presentes também nos ranchos – que polarizavam as camadas pobres e remediadas da população carioca antes da supremacia das escolas de samba – e nas “taieiras”, um séquito religioso que saía às ruas nas festas de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário. Nas taieiras confundiam-se religiosidade e o canto profano das “lindas mulatas, vestidas de saias brancas, entremeadas de rendas, de camisas finíssimas e de elevado preço”, que Melo Morais Filho viu no século XIX e registrou em sua obra Festas e tradições Populares do Brasil.
É  do compositor Cartola a lembrança de que, nos primeiros anos da década de 20, os agrupamentos de sambistas tinham dono: em geral, um valente que liderava os demais. – No Morro da Mangueira – registra Cartola -, o dono do samba era um tal de Boco. De certa feita, um amigo desse Boco convidou-o a levar o samba de Mangueira a Botafogo. Fomos a pé, cantando e batendo nossos instrumentos, passando praticamente por seis bairros. De quando em vez, parava-se em frente a alguma casa e nos exibíamos. Das janelas e em torno de nós pessoas atiravam moedas, que a mulher do tal Boco ia guardando num saco de pano, assim como fazem as folias de reis. Quando chegamos, afinal, em Botafogo, uma senhora nos recebeu na porta do homem do convite, informando que ele não estava. Já estávamos caindo de fome e aquilo, foi um choque. A gente ali, parados, sem ação, decepcionados. De repente, a mulher se apiedou de nós, olhou para um pé de carambola e disse: “quem quiser pode apanhar”. Todo mundo se fartou. Antes de voltarmos ao morro, o Boco, a mulher dele o saco de dinheiro da coleta haviam desaparecido.
Como havia perseguição policial aos sambistas (genericamente considerados maus elementos), era nos morros, em terreiros de modestas moradias, que os grupos de samba contavam com maior liberdade para realizar suas festas. À distância, o som dos instrumentos era inaudível, e o difícil acesso intimidava a ação dos repressores.
Juvenal Lopes – o conhecido Nanal, do Estácio, por várias vezes presidente da Mangueira – registra que alguns delegados de polícia chegaram a se notabilizar pelo “carrancismo com que se especializavam na perseguição dos sambistas”. Conta Nanal: - um deles, o delegado do 23º distrito, Abelardo Luz, chegava a tais extremos que até lhe dediquei um samba, cujos versos dizem:
“credo em cruz!/ aí vem o delegado/Abelardo da Luz./temos pão-de-ló,/ temos pão com manteiga./ Você sai do samba./ já vou minha nega”.
Relembra ainda Nanal que, na mesma noite em que tirou esse samba,  na casa de Francelino, no Morro do Urubu ( Madureira), o local da festa foi cercado pelo próprio Abelardo da Luz, que os levou a bengaladas, morro abaixo, até a delegacia, onde foram obrigados a cantar samba sem parar.  – Se alguém silenciasse, era pá-pá-pá, bengalada no lombo.
No Estácio, a excelente memória de Tia Lourdes (Lourdes Medeiros, nascida na primeira década do século XX), lhe permite falar de quatro terreiros de samba, no Morro de São Carlos; o de Tia Atanásia, o de Tia Miquimba, o de Dona Mariazinha e o de Carestia da Prata, o maior valente do morro.
- Ainda não se saía com samba nas ruas – conta ela. – Era tudo realizado lá no morros mesmo.
Dona Sinhá ( Maria Ramos da Conceição), uma das mais antigas baianas do Estácio, descreve as festas e a limitações do terreiro de uma dessas tias, a Tia Miquimba:
- era um quintal de 3 metros por 4, no alto do morro, cercado por um baldrame de madeira. O ritmo era feito com os instrumentos da macumba dela. As mocinhas eram muito protegidas pela severidade da dona da casa e do seu homem. Dançava-se em roda e aos casais, quando aparecia cabaça e cavaquinho, para dar mais harmonia. A dona da casa servia canjica, em caneca de metal, para forrar nosso estômago.
Em outro reduto de samba, o Engenho de Dentro, no Rio da década de 20, o quadro pouco se diferenciava. José Espineli ( ou Zé Espinguela), conhecido macumbeiro, organizava festas:
- Ele morava no Engenho de Dentro – conta Cartola -, numa casa onde se realizava roda de samba na frente, macumba na sala e caxambu nos fundos.
Mestre Dengo ( Ariodantino Vieira, nascido em 1908), compositor da Mocidade Independente de Padre Miguel, dá mais um retrato desse período. Ele participou das festas realizadas no quintal da casa de Napoleão do Nascimento (pai do Natal da Portela), em Oswaldo Cruz.
Ali, em 11 de abril de 1923, se fundaria a Vai Como Pode, hoje Portela. – O ambiente era muito carregado - lembra Mestre Dengo -, às vezes, ganhava tamanha tensão que ninguém respeitava ninguém. As figuras mais acatadas eram Nonô Sapateador, Manoel Bam-Bam-Bam e Paulo da Portela. Além do samba, a brincadeira preferida era o jogo da perna, na roda de samba. Tirava-se um mote, como no caxambu, e ficava-se repetindo seus dois ou quatro versinhos, pobres de letra e, às vezes, sem rima. Um dos participantes ia para o meio da roda e se plantava ali, ereto como um poste. Antes, porém, sambava, fazia salamaleques, e tocava, com os joelhos e o pé, as pernas de um companheiro de roda. Esse, o desafiado, passava então a sapatear e gingar em torno do desafiante plantado até que, num momento de surpresa, mandava a perna. Se houvesse queda, ele desafiava um outro companheiro e plantava pra ele. Certa madrugada apareceu no terreiro do Napoleão, um sujeito mascarado, vestido de mulher, com a saia amarrada às pernas. Era imbatível na pernada. Quem plantasse, caía.
- No canto de improviso – prossegue Mestre Dengo -, surgiu um partido-alto muito alegre, conhecido até nos dias de hoje:
“deixa amanhecer,/ para conhecer quem é./ Deixa amanhecer;/para conhecer quem é”. Realmente, ao amanhecer, a figura mascarada se revelou. Era o Roxo da Favela, um capoeirista muito valente e respeitado.

ESCOLAS DE SAMBA - TIAS, FUTEBOL E RANCHOS




TIAS, FUTEBOL E RANCHOS

Em fins do século XIX, tangidos para o Rio de Janeiro pelos efeitos da Guerra dos Canudos e da peste que dizimava povoados do sertão, levas de retirantes baianos começaram a ocupar as montanhas adjacentes ao Morro da Matriz, junto ao centro do Rio de Janeiro.
(A eles se deve o neologismo “favela”, designando um agrupamento de submoradias enquistado nos morros – o termo antes indicava apenas uma planta comum na região de origem desses migrantes).
Em 1870, mudara-se para o Rio de Janeiro, a baiana Hilária Batista de Almeida, indo residir na Rua da Alfândega, e, mais tarde, na Visconde de Itaúna. Hilária tornou-se famosa como Tia Asseata, Assiata, ou Ciata, e sua casa tornou-se um centro de festas e reuniões de boêmios, fundamental como dado indicativo do surgimento do samba. Ali, fizeram-se conhecidos grandes nomes da música como Caninha, Pixinguinha, Sinhô, Heitor dos Prazeres, Donga e Mauro de Almeida (responsáveis, os dois últimos pelo registro da expressão “samba”, designando uma nova manifestação de cultura popular, através do canto e da dança).
Nos encontros em casa da Tia Ciata destacava-se a figura de Hilário Jovino Ferreira, que marcaria sua existência por ser o iniciador do movimento que resultou na criação do primeiro rancho carnavalesco: o Rei de Ouro, fruto de suas lembranças das festas dos Três Reis Magos, da Bahia.
Segundo Bicho Novo (Acelino dos Santos, nascido em abril de 1909), as escolas de samba tiraram sua forma de organização e andamento dos ranchos. “Só o ritmo é diferente”.
Juntamente com Juvenal Lopes, Bicho Novo, foi um dos maiores mestres-salas do Estácio e Fundador da Deixa Falar. Acrescenta ele que os times de futebol também deram sua contribuição, mas os ranchos é que ofereceram  a forma de apresentação das escolas de samba:  - havia samba em toda parte, mas o pessoal do Estácio tinha mais organização porque vinha da experiência do futebol. Lá se reuniam os times da Ponte dos Marinheiros, da Mangueira e do próprio Estácio, que jogavam no campo do Flamenguinho ou da Mangueira. Depois dos jogos, bebia-se, comia-se e se fazia samba.
As cores da Deixa Falar, por exemplo, são as do América, vermelho e branco. Já o nome de “ escola de Samba” todo mundo diz que foi o Ismael Silva que deu, por causa da escola normal da cidade, que era aqui no Estácio. Orgulhoso da nossa melhor organização, ele dizia:
“nós somos escola de samba”. Os outros, para não ficarem para trás, também foram se denominando “escolas de samba”.
Dois sambas do final da década de 20, de redutos próximos do Estácio, oferecem a técnica desse aperfeiçoamento que Bicho Novo atribui à DEIXA FALAR . ao tempo em que o  compositor Brinco, da VÊ SE PODE, compunha usando expressões de caxambu, macumba e jongo (“até parece coruja,/ que anda gabando o toco onde mora./ Assim é você,/que anda dizendo que teu bloco é melhor./Fica feio pra você./Oh! Meu belo moço,/ Quem corre cansa./Você mesmo toca,/você mesmo dança”), Bide, na DEIXA FALAR, já colocava em seus sambas versos afinados com os que viriam a caracterizar o samba urbano carioca: “ Sempre vencemos, nunca perdemos./Nosso time é o Estácio./Vamos pra Balança,/ Não damos confiança./ Peso é peso,/Braço é braço”.
- O pessoal do morro – analisa Bicho Novo – fazia samba após a macumba, no terreiro. Vestia brim caroá, chapéu de palha, calçava tamanco, chinelo. Os rapazes da Estácio gostavam de futebol, baile, de ternos de panamá, chapéu de palha-de-arroz, camisa e meia de seda, o sapato contra-caldo (película fina, preto e branco, salto carrapeta). Eles é que criaram o Bloco DEIXA MALHAR e, mais tarde, a Escola de Samba DEIXA FALAR, que nasceu numa estalagem localizada na esquina das ruas Maia Lacerda com Estácio. Bull-dog (um dos melhores mestres-salas do período áureo dos ranchos) e Otávio é que tiveram a ideia. Todo mundo acompanhou. Os dois eram responsáveis pelo time do Estácio e saiam no Rancho MACACA É OUTRO. Então, vinham com aquela experiência toda: “ritmistas ficam ali atrás, as moças em fila dos lados, vai um grupo de homens fortes na frente, etc.  e tal”.

FONTE: NOVA HISTÓRIA DA MUSICA POPULAR BRASILEIRA
ABRIL CULTURAL – 1979