domingo, 28 de junho de 2020

MORAES MOREIRA E OS NOVOS BAIANOS - II





No início, apenas um quarteto – Moraes, Galvão, Paulinho e Baby (cujo novo e celebrado nome nasceu de uma personagem de filme) – que era acompanhado pelos Leif’s. Galvão, o poeta e mentor era obrigado a fazer mímica no palco, porque na época os empresários não admitiam trios de cabeludos e só Moraes,  o parceiro de Galvão, a voz agridoce, o violão sutil. Paulinho era o malandro, o Lúcifer, o mandingueiro.  Pepeu era o músico. Baby, a menina.
Depois do reboliço do DILÚVIO em Salvador, os Novos Baianos vão para São Paulo, onde se apresentam em inúmeros programas de TV, sempre ultrapassando o número previsto de músicas e encerrando expedientes absurdos, como fizeram ao terminar seu showzinho no programa  de Hebe Camargo, dançando tango com a animadora. Começa aí uma extensa lista de empresários, gravadoras,  úlceras e dores de cabeça para quem quer que ousasse contratar os Novos Baianos.
O primeiro empresário foi o poderoso marcos Lázaro e a primeira contratação foi pela RGE, através de João Araujo. Lançam, em 1970, um compacto (De vera: “De Vera estou falando de vera/,  de vera, da primavera/ da prima Vera, deveras”,  e  Colégio de Aplicação) e em seguida um LP cáustico, sardônico, ameaçador (É ferro na boneca: “Não olhe, ande, olhe./ O produssumo queima a bagagem./ Necas de olhar pra trás./ O quente, o veneno./ É pluft, pluft, pluft, pluft, pluft./ É ferro na boneca./É o gogó, neném »), que incluía as faixas do compacto e uma cornucópia de estilos e títulos: Outro mambo, outro mundo;  A casca de banana que eu pisei; Dona Nita e Dona Helena (homenagem às mães de Moraes e Galvão).
Como o sucesso em São Paulo não fosse dos mais estimulantes, como ficou comprovado na desclassificação de De Vera durante o Festival da Record de 69,  os Baianos buscam público no Rio de Janeiro, levando consigo o Dilúvio e Pepeu, com seu novíssimo grupo de Ribeirão Pires, interior de São Paulo,  Os Enigmas, de onde saiu também Odair  Cabeça-de-Poeta, que muitos insistem em confundir  com um ex-Novo Baiano, mas que, segundo negativa veemente de Pepeu, nunca fez parte do grupo.
A mise-en-scéne  foi a mesma do Teatro Vila Velha, só que, dessa vez, no Teatro Casa Grande. Como precisavam de um baixista (o efetivo dos Enigmas ficara em São Paulo), eles buscam um substituto nas ruas de Ipanema e acabam achando Dadi, roqueiro de 18 anos, cuja única experiência  verdadeira como músico vinha de tardes e noites aprendendo a última dos Rolling Stones com seus amigos. Pepeu se dispõe a “criar” Dadi e lhe dá a vaga. Novas mudanças no grupo: Pepeu se desliga definitivamente dos Enigmas, chama seu irmão Jorginho para ser baterista, convida dois amigos percussionistas de São Paulo, Bola e Baixinho.
A farra estava formada. O LP pela RGE não vendera grande coisa, servindo apenas de hóstia àqueles que, pouco a pouco, iam transformando os Novos Baianos em banda cultuada, com um número determinado de adoradores profanos que os seguiam onde quer que estivessem.



Um dos grandes atrativos dos Novos Baianos era seu estilo até então inusitado de vida: todos moravam juntos, em comunidade, em Botafogo: quatro cômodos divididos entre doze pessoas.
- Morar junto era ótimo para todos nós, porque aumentava o nível de relacionamento pessoal e, também, o de relacionamento musical  -- explica Pepeu.  – Assim, nos conhecíamos cada vez melhor e, consequentemente, sabíamos tocar melhor um com o outro.
A grande interação, além de provocar um perfeito entrosamento entre os músicos, gera subgrupos dentro dos Novos Baianos, como o trio Dadi (baixo), Pepeu (guitarra) e Jorginho (bateria), que passa a se chamar A Cor do Som e a apresentar um repertório elétrico-eclético que deixava entrever a destacada direção musical de Pepeu, guitarrando feroz, misturando Trio Elétrico e Jimi Hendrix num fraseado só.
Em 1971, a segunda gravadora e o segundo compacto ( Dê um rolé,  Risque, Você me dá um disco e Caminho de Pedro),  produzido  por Nélson Motta e lançado pela Philipps. Segundo Moraes, um disco ruim, mal gravado, aquém do esperado.
No mesmo ano, a quebra total. João Gilberto vem ao Brasil e vai se confraternizar com os Novos Baianos em Botafogo. –Foi aí que tudo mudou – Moraes recorda – João nos fez ver com outros olhos a música brasileira. Pela primeira vez pegamos num cavaquinho, num pandeiro, para tocar samba. Foi  João quem disse para gente que Brasil pandeiro, de Assis Valente, era a nossa cara.
O ritmo de composição da dupla Galvão-Moraes sobe muito. Da efervescência saem sons cada vez mais brasileiros:
PRETA PRETINHA
“ Enquanto eu corria,
Assim eu ia lhe chamar,
Enquanto corria a barca,
Lhe chamar
Por minha cabeça não passava,
Só, somente só, assim vou lhe chamar
Assim você vai ser,”
Preta, preta, pretinha
Abre a porta e a janela
E vem ver o sol nascer
 Eu sou um pássaro
Que vivo avoando
Vivo avoando
Sem nunca mais parar
Ai-ai, ai-ai, saudade
Não venha me matar






Acabou chorare  (“ ficou tudo lindo/ de manhã cedinho/ Tudo cá,cá,cá/ Na fé, fé, fé/ No bu-bu li-li/ No bu-bu-li-lindo/ No bu-bu bolinho”),  Swing de Campo Grande. Os papéis  dos músicos ficam cada vez mais multifacetados, e surge dentro do próprio grupo, um regional.
Com todas as inovações, os Novos Baianos fazem um temporada na boate Carioca Number One, que deveria ter durado um mês, mas que acabou se estendendo por dois mais por exigência do dono da casa, estimulado pela boa lotação que o grupo trazia com sua nova direção musical.  O público de meia-idade que frequentava o Number One não podia deixar de se surpreender com “um bando de cabeludos” fazendo um puro e sonoro samba.
Em sua terceira gravadora, os NB,  recém-saídos  desse vigoroso banho de brasilidade, gravam seu mais consistente álbum, ACABOU CHORARE,  lançado em 1972 pela Sigla.  O álbum mostrava todas as nuanças do novo trabalho baiano: o grupo todo, o regional e o power-trio da COR DO SOM.  Exaustivamente tocado nas rádios, celebrado pela crítica e pelo público – que, de início, se assustou com uma presumida bande de rock, esquentando seus pandeiros, mostrando que o Tio Sam é quem queria conhecer a batucada brasileira.







Fonte: NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
ABRIL CULTURAL - 1978
Fotos: GOOGLE
Vídeo: YOUTUBE

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