sexta-feira, 4 de maio de 2018

CHIQUINHA GONZAGA -FRANCISCA EDWIGES NEVES GONZAGA - 17/10/1847





No dia 17 de outubro de 1847 nascia na aristocrática Rua do Príncipe, no Rio de Janeiro, uma menina que se chamaria Francisca Edwiges Neves Gonzaga, filha de um militar José Basileu Neves Gonzaga e de Rosa Maria Neves de Lima, uma mulata de origem humilde. José Basileu pertencia a uma família ilustre do Império, ligada aos Lima e Silva (que tinha em Caxias o seu maior representante),  e que chegaria  ao posto de marechal de campo.
Se há alguém  de quem se possa dizer (sem perigo de lugar-comum)  que a sua vida parece um romance, esse alguém é a compositora Chiquinha Gonzaga. Quem a visse com seus vestidos escuros, nos últimos anos de vida, na década de 30, comparecendo às estreias teatrais no Rio de Janeiro ao lado de  João Gonzaga, jamais poderia imaginar que aquela austera velhinha de gola alta tivesse sido uma pioneira da emancipação da mulher no Brasil.
À entrada do Teatro São José ou nos jardins do teatro Recreio, os senhores que a cumprimentavam, tirando respeitosamente o chapéu de palha, não podiam, porém, deixar de sorrir amigavelmente ante certas lembranças. Francisca Edwiges, a independente representante da severa família Neves Gonzaga, fora a primeira moça de família carioca a usar um lenço na cabeça, em público, em lugar de chapéu. E na noite de estreia de uma companhia lírica estrangeira, estando sem dinheiro  para comprar uma cadeira na plateia, subiu simplesmente  até os últimos bancos das torrinhas, só frequentadas até então  por estudantes piadistas e irreverentes e pela estranha fauna humana dos profissionais da claque.
Chiquinha Gonzaga, é claro, sabia que atitudes como essa causavam escândalo entre as arfantes senhoras amarradas em espartilhos, que suspiravam com os sonetos de Olavo Bilac, mas era talvez  por isso mesmo que ousava.  A sua independência, lhe tinha custado, quase menina, uma dura guerra, que fora obrigada a sustentar sozinha contra a família e contra os preconceitos.
Quando Francisca Gonzaga nasceu, naqueles primeiros anos do reinado do austero Dom Pedro II, as meninas burguesas que usavam grandes laços de fita e polainas cheias de botõezinhos, não tinham muito em que pensar. Brincavam de roda, aprendiam a ler e escrever, iniciando-se em francês com professores que vinham em casa (o de Chiquinha fora o Cônego Trindade, amigo da família). E, quando chegava a puberdade, eram apresentadas na sala de visitas ao senhor de bigode e costeletas que a família escolhera para ser o seu marido. Com a menina Francisca Edwiges, desde cedo chamada de Chiquinha, o velho costume patriarcal das grandes famílias brasileiras ia cumprir-se com a precisão de um ritual.
Ao completar treze anos, a aluna de piano do Maestro Lobo (e que dois anos antes estreara como compositora com uma cantiga de Natal intitulada CANÇÃO DOS PASTORES, 




veio saber que o seu escolhido era um oficial da marinha mercante chamado Jacinto Ribeiro do Amaral, meio associado ao Barão de Mauá na exploração de um certo navio São Paulo. Corria o ano de 1860  e o então Major Gonzaga previa pelas agitações políticas  na região do rio da Prata,  que um armador não seria mau genro àquela altura.


Jacinto Ribeiro do Amaral

Realizado o casamento, verificou-se que ele tinha razão. Em 1864 começou a guerra do Paraguai e grandes verbas do governo passaram a correr para os bolsos de Jacinto  e do Barão de Mauá, em pagamento do transporte de soldados e material bélico para o sul.

O que era, entretanto, uma satisfação para o previdente chefe da família Gonzaga, tornou-se desde logo o tormento da jovem senhora Gonzaga do Amaral. Com o dobro da sua idade, Jacinto tinha a sólida incultura de um pequeno empresário do Segundo Império, herdeiro de todos os vícios da tradição patriarcal-escravista. Além de implicar com o piano da esposa (que acabou vendendo), Jacinto obrigava-a a viajar com ele, praticamente reclusa em seu camarote do São Paulo. E quando Chiquinha resolveu compensar-se da falta de música comprando um violão, as brigas do casal atingiram o auge. Já a esta altura mãe de três  filhos, a futura maestrina, colocada pelo próprio Jacinto na opção de escolher entre ele e o violão, tomou a sua primeira grande decisão: comprou passagem para ela e para os filhos em outro navio e voltou ao Rio de Janeiro, trazendo o violão.  O marido, no entanto, não permitiu que ela cuidasse dos filhos mais novos, Maria do Patrocínio e Hilário, e apenas o filho João Gualberto ficou com ela.

Fonte: Nova História da Música Popular brasileira
           Abril cultural - edição 1977
Imagens: Google

CHIQUINHA GONZAGA - II - CASAMENTO - SEPARAÇÃO - AULAS DE PIANO




Nos dias atuais não faltariam amigos para amparar uma mulher que tivesse as razões de Chiquinha Gonzaga para romper com o casamento. Mas naquela segunda metade do século XIX, uma mulher que abandonava o marido tornava-se responsável  por uma “vergonha” que devia enfrentar sozinha. No primeiro momento, a voluntariosa Francisca Edwiges pensou que poderia sair da dificuldade pelo caminho mais agradável: namorando um jovem engenheiro apreciador de boa música, e passando a viver com ele, João Batista de Carvalho, com quem teve uma filha Alice Maria. Mas as condições de vida que o engenheiro construtor de estradas de ferro lhe oferecia acabaram se revelando simples repetição do que acontecera com Jacinto. O novo marido não a fechava num camarote, mas levava-a em sua vida nômade a viver em barracas armadas na Serra da Mantiqueira, ouvindo o martelar da colocação dos trilhos durante o dia e o zumbido dos mosquitos durante a noite. Foi preciso pouco tempo para Chiquinha compreender a sua falta de vocação para o casamento: separando-se  também do engenheiro, encerrava as suas tentativas de vida familiar e iniciava a carreira de mulher independente, em que poderia afinal revelar a sua verdadeira personalidade.  Ao separar-se de João Batista, este também não permitiu que Chiquinha ficasse com a guarda da filha.





Para a jovem mãe que só sabia tocar piano, o início não foi fácil. Instalada no térreo de uma casa da antiga Rua da Aurora (hoje General Bruce), Chiquinha fez uma revisão dos cadernos de aula dos tempos do Cônego Trindade, e anunciou corajosamente que ensinava português, francês, latim, geografia, história e matemática.  O seu tipo físico, porém, descrito pelo jornalista Barros Vidal, como “bem brasileiro - um mundo de seduções nos olhos, morena, cabelos negros ligeiramente ondulados”, não devia servir muito à imagem da mestra de saberes tão diversificados. E foi assim que a aluna do Maestro Lobo desbancou a do Cônego Trindade, fazendo surgir a professora de piano de compositora de polcas, valsas, tangos  e cançonetas Chiquinha Gonzaga, que em breve o Brasil todo ia conhecer.
Por aqueles fins da década de 1870, bom pagamento para um músico que animasse uma festa, tocando sem parar durante toda a noite, não ia nunca além de 10 mil-réis. Pois Chiquinha, além das aulas na casa dos alunos, juntou-se a um grupo de músicos de choro, para concorrer algumas vezes na semana a alguns desses cachês. Quando podia, Chiquinha encaixava no conjunto o seu filho mais velho, João Gualberto, que por não ter chegado ainda aos quinze anos só recebia 2 mil-réis. Para a outrora mimada filha dos Neves Gonzaga era uma dura experiência, mas foi essa necessidade de adaptar a voz do seu piano ao gosto popular que lhe valeria, em poucos anos, a glória de tornar-se a primeira grande compositora popular do país.









Fonte: Nova História da Música Popular Brasileira
           Abril Cultural - 1977
Imagens: Google

CHIQUINHA GONZAGA - III - ATRAENTE - PRIMEIRO SUCESSO E PRECONCEITOS





O primeiro sucesso de Chiquinha Gonzaga aconteceu em 1877, quando se aproximava dos 35 anos. Estatura baixa (mesmo para a média das brasileiras da época), mas cheínha de corpo como pedia a estética algo renascentista do século XIX brasileiro, Chiquinha atingia então o ponto culminante da sua libertação dos preconceitos vigentes.  Tendo desistido das experiências duradouras, a atraente professora de piano e compositora de choros passara a adotar pioneiramente o conceito do amor livre, aceitando a simpatia de quem mais lhe agradasse, na verdadeira legião de candidatos às descomprometidas graças dos seus encantos.
Pois foi numa dessas reuniões entre amigos – e nas quais muitas vezes ela figurava como a única mulher – que Chiquinha Gonzaga teve a oportunidade de revelar pela primeira vez o seu talento de compositora popular. Segundo sua biógrafa Mariza Lira, isso se deu numa tarde de 1877. Chiquinha fora cumprimentar o compositor Henrique de Mesquita, criador do tango brasileiro, por ter sido agraciado pelo governo de Portugal com a comenda de São Tiago. A maestrina teria ouvido durante um sonho, na noite anterior, o esboço de uma melodia que, ao acordar, continuava a lhe ressoar no ouvido. Assim, durante a reunião de homenagem a Henrique de Mesquita na sua casa da Rua Formosa (hoje General Caldwell), e na qual se encontrava presente o famoso flautista Joaquim Antonio da Silva Callado,

Chiquinha Gonzaga sentou-se ao piano e começou a desenvolver de improviso a melodia sonhada. Era uma polca de ritmo sincopado, e logo após os primeiros acordes, esboçada a linha melódica, cada músico presente, contaminado pela graça saltitante da composição, entrou acompanhando com seu instrumento, o que transformou de maneira inesperada a primeira execução da polca na improvisação coletiva de um choro.  Essa polca logo famosa, intitulada ATRAENTE estava destinada porém a não permitir que Chiquinha Gonzaga provasse do sucesso sem o acompanhamento de um desgosto.





Impressa pelo Imperial Estabelecimento de Pianos e Músicas de Narciso A. Napoleão e Miguez, com bela capa desenhada por Bordalo Pinheiro, a polca Atraente, ao ganhar nas ruas as glórias do assobio anônimo, acabou recebendo também uma letra em que a autora era citada, de maneira ferina, pela facilidade com que se tornava atraente para  os homens.




ATRAENTE  ( Imagens do Rio Antigo)

A partir da repercussão da sua primeira composição impressa, Chiquinha Gonzaga (que a esta altura aperfeiçoava os conhecimentos de música com o Maestro Arthur Napoleão), sentiu que poderia se lançar a um novo campo da criação musical: o teatro de variedades, centralizado na famosa Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Na verdade, para um bom músico da segunda metade do século passado  -  quando ainda não se pensava no disco e não se imaginava o rádio - , o melhor campo de trabalho e as mais amplas oportunidades de criação estavam nas operetas, revistas e burletas, que Arthur Azevedo se encarregara de transformar no espetáculo predileto da nascente classe média moderna, a partir da década de 1870.

Mais uma vez, entretanto, a compositora Chiquinha Gonzaga ia esbarrar num preconceito: até 1885, quando finalmente consegue estrear compondo a música da opereta de costumes A CORTE NA ROÇA, jamais se concebera uma mulher entre músicos e artistas, nos bastidores de um teatro. Ainda uma vez, porém, a valente Chiquinha Gonzaga imporia a sua vontade, depois de quase ser preciso lutar fisicamente contra a resistência dos músicos. Conforme relata Mariza Lira, o responsável pela Companhia Portuguesa Souza Bastos estava na Europa, e os músicos portugueses que ensaiavam a partitura de A Corte na Roça tentaram passar sobre a autoridade da autora da música, imprimindo andamentos diferentes dos indicados, o que levou Chiquinha Gonzaga a investir em fúria contra um dos instrumentistas:

- Alto lá, quem escreveu essa música fui eu, e não o senhor. Respeite o meu pensamento!

Vencidas as primeiras barreiras, ia ser afinal nesse movimentado mundo do teatro musicado que a compositora da polca Atraente melhor se realizaria. Desse ano de 1885 até 1934, quando aos 87 anos escreveu a partitura da opereta MARIA,  a pedido de Viriato Correia, Chiquinha comporia a música de 77 peças teatrais (das quais apenas cinco ficaram inéditas), tornando-se responsável, no total, por cerca de duas mil composições: polcas, valsas, tangos, lundus, maxixes, fados, quadrilhas, gavotas, barcarolas, mazurcas, habaneras, choros e serenatas.




Fonte: Nova História da Música Popular Brasileira
           Abril Cultural - 1977
Imagens: Google
Vídeo: Youtube


CHIQUINHA GONZAGA - IV - ABRE ALAS - CORTA JACA - FORROBODÓ E O TANGO GAÚCHO




A notoriedade que a condição de maestrina de teatro agora lhe garantia (os maestros capazes de escrever arranjos para vários instrumentos eram muito poucos, daí o prestígio dos músicos da Praça Tiradentes) permitiu a Chiquinha Gonzaga desdobrar sua personalidade nas mais diferentes atividades. Dois anos depois de sua estreia no Teatro Príncipe Imperial (depois São José), a maestrina promove no Teatro São Pedro um concerto de cem violões, para provar a superioridade da música popular brasileira. E como estava no auge a campanha pela libertação dos escravos, Chiquinha Gonzaga oferece apoio a José do Patrocínio, e sai às ruas vendendo partituras de suas músicas, de porta em porta, em benefício do fundo de manumissão de escravos da Confederação Libertadora.


JOSÉ DO PATROCÍNIO


Já a esta altura reconhecida como uma mulher original (era ela quem idealizava e costurava os seus vestidos cheios de invenção, o que lhe conferia uma marca de excentricidade), Chiquinha passa a transformar-se em notícia com frequência. Em 1894 é homenageada a bordo do navio francês  Duquésne, capitânia da Division Navale de l’ Atlantique, sob o comando do Almirante Fournier, recebendo, diante da guarnição formada no convés, um broche com as notas dos primeiros compassos da sua valsa VALQUÍRIA cinzeladas em ouro. Em 1888 antecipa-se à Lei Áurea, comprando a liberdade do escravo músico José Flauta apenas com a venda de partituras da sua composição CARAMURU, que dedicara à Princesa Isabel. 



Em 1889 tem seu nome ligado aos combatentes da República. Em 1902, 1904 e 1906/10 viaja pela Europa, quando se exibe no Salão Neuparth, de Lisboa (1904),  e surpreende o prior da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica, fazendo variações ao órgão em torno de temas da ópera O TROVADOR, de Verdi, sem que os fiéis percebessem que se tratava de música profana.Nessa estada de quatro anos em Portugal, a compositora brasileira escreve músicas para várias peças de autores portugueses entre elas As três Graças e a Bota do Diabo.
 Ao voltar  para o Brasil, vai colher o maior sucesso da sua carreira com a opereta em três atos de Luiz Peixoto e Carlos Bittencourt intitulada FORROBODÓ.





Antes dessa peça de 1912, que vale por um verdadeiro retrato dos costumes populares da zona pobre do Rio de Janeiro da primeira década do século, Chiquinha Gonzaga já havia lançado para o sucesso, a partir do teatro, muitas de suas composições, sem contar com a marcha Ó ABRE ALAS,  composta em 1899 a pedido dos componentes do cordão carnavalesco Rosa de Ouro (e que seria a música obrigatória e única dos carnavais dos primeiros anos do século XX). O Abre-Alas foi o primeiro grande sucesso carnavalesco do Brasil; essa marcha  constituiu a maior atração do carnaval de 1899 e se manteve nos cinco anos seguintes como campeã absoluta desse festejo popular.



Ó Abre alas
Que eu quero passar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Eu sou da Lira
Não posso negar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Ó abre alas
Que eu quero passar
Rosa de Ouro
É quem vai ganhar

A maestrina ainda fizera todo o Brasil dançar em 1897 uma estilização da dança rural corta-jaca, sob a forma do tango GAÚCHO.
A música lançada na peça ZIZINHA MAXIXE, de Machado Careca, transformara o ritmo estilizado do corta-jaca num sucesso sem precedentes, ilustrando a dança sertaneja chamada de corta-jaca.  




 Em 1901, quase quatro anos depois de composta, os artistas de variedades do Eldorado, no bairro boêmio da Lapa, dançavam o Gaúcho, sob a forma de maxixe, para a delirante plateia de gente simples. O agrado era tanto, que o ator Machado Careca (famoso pelo seu jeito de dançar O Gaúcho, enroscando-se todo na melhor parceira nesse número, Maria Lino), tratou de providenciar uma letra que passou a intitular de Dueto do Corta-jaca: “Neste mundo de misérias, quem impera”, cantava Machado Careca, “é quem mais é folgazão,/ é quem sabe cortar jaca nos requebros/ de suprema perfeição”, após o que, atracava-se com Maria Lino, cantando os dois em coro o estribilho que se encarregavam de tornar malicioso com o roçar de umbigo e as descaídas da dança acrobática do maxixe: “ Ai! Como é bom dançar! Ai/ corta jaca assim...assim...assim...”.
E continuando o sucesso do “tango brasileiro”, com a  sua inclusão  em 1904 na revista luso-brasileira CÁ E LÁ, o GAÚCHO adquiriu tanta popularidade que chegou à França e à Alemanha. O compositor francês Darius Milhaud, no fim da década de 1910, usou o tema para um balé intitulado Le Boeuf sur le toit,  totalmente inspirado e formado por motivos brasileiros.   Seria esse o número que Dona Nair de Tefé, esposa do Marechal Hermes da Fonseca, presidente da República,  iria escolher em 1914 para tocar ao violão nos jardins do Palácio do Catete, para escândalo nacional e glória de Chiquinha Gonzaga. 





Mas foi de fato com a opereta Forrobodó que a famosa compositora atingiu o ponto culminante da sua longa carreira.

Fonte: Nova História da Música Popular Brasileira
            Abril Cultural - 1977
Imagens: Google

CHIQUINHA GONZAGA - V - LUA BRANCA - CHIQUINHA E JOÃO BATISTA LAGE






Corta-Jaca (partitura)



Por volta de 1900, Chiquinha conhece a irreverente artista Nair de Tefé Von HoonHoltz a primeira caricaturista mulher do mundo, uma moça boêmia, embora de família nobre,da qual se torna grande amiga. Chiquinha viaja pela Europa entre 1902 e 1910, tornando-se especialmente conhecida em Portugal, onde escreve músicas para diversos autores. Logo após o seu retorno da Europa, sua amiga Nair de Tefé casa-se com o então Presidente da República Hermes da Fonseca, tornando-se primeira dama do Brasil. Após o término do mandato presidencial, o casal  Hermes da Fonseca e Nair de Tefé mudam-se para a França e em decorrência desse afastamento, Chiquinha e Nair acabam por perder contato.

A peça de dois novatos Luiz Peixoto e Carlos Bittencourt, depois uma das mais famosas duplas  de autores do teatro de revista carioca, – estreou em 11 de junho de 1912, para bater um recorde absoluto de permanência em cartaz na história do teatro de revista brasileiro: 1500 representações.
Na noite da estreia do original, encenado sob um clima de descrédito (a montagem custou apenas 125 mil-réis), até o ator Alfredo Silva, que faria o papel de um engraçado guarda-noturno, manifestava o seu medo do fracasso.




- Não se impressione – disse-lhe então nos bastidores a confiante Chiquinha Gonzaga- , esta peça vai dar muito dinheiro para todos nós! E vocês vão ficar com caras de bobos...
Essa frase profética de Chiquinha seria usada por ela mesma para atribuir um segundo nome à composição-título da peça, que passou a ser indicado nas partituras “tango Não se impressione”, embora todos continuassem a chamá-lo, como desde o início, de Forrobodó. Foi o tema dessa composição que o músico erudito francês Darius Milhaud ouviu cantado e assobiado pelas ruas do Rio de Janeiro em 1917, quando servia com o embaixador e poeta Paul Claudel no Brasil. E pensando, talvez, que se tratasse de música do folclore, aproveitou-o em 1924 no seu poema sinfônico sobre temas brasileiros, intitulado Le Boeuf sur le toit ( O boi no Telhado).






Ó lua branca de fulgores e de encanto
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
Vem tirar dos olhos meus o pranto
Ai! vem matar essa paixão que anda comigo.

Ai!  por quem és, desce do céu, ó lua branca
Essa amargura do meu peito, ó vem, arranca
Dá-me o luar de tua compaixão
Oh! vem por Deus, iluminar meu coração.

E quanta vezes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite calma e constelada
A sua luz, então, me surpreendia
Ajoelhado junto aos pés da minha amada.

E ela a chorar, a soluçar, cheia de pejo
vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo
Ela partiu, me abandonou assim
Oh! lua branca, por quem és, tem dó de mim.

Modinha integrante da burleta Forrobodó, foi composta, ao que consta, em algumas horas, às vésperas da estreia, transformando-se num dos maiores sucessos de Chiquinha Gonzaga. O estilo é da velha modinha provinda do Império, mas revelando a contribuição muito particular da concepção melódica de Chiquinha.
LUA BRANCA - MARIA BETHANIA


Para Chiquinha Gonzaga, que desde 1917, com a criação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, SBAT, transformara-se numa espécie de figura simbólica do teatro musicado, era uma glória que ia muito além das ambições de quem já dizia desejar como epitáfio apenas duas palavras: “Sofreu e chorou”.  Mas foi afinal cercada dessa glória que Chiquinha Gonzaga viveu até às vésperas do carnaval de 1935 ( ela morreu a 28 de fevereiro, numa antevéspera do chamado sábado magro do carnaval). Caminhava então para os 89 anos, e sua única distração era comparecer diariamente à SBAT para tomar conhecimento das pequenas intrigas do meio teatral, o que a levou a responder, em seus últimos anos de vida, ao Maestro Francisco Braga, que lhe perguntara se ainda compunha muito:


- Qual o quê! Agora só descomponho!..



.
Aos 52 anos de idade, Chiquinha conheceu João Batista Fernandes Lage, um jovem português, com 16 anos de idade,  aprendiz de música, por quem se apaixonou. Para viver um grande amor, temendo o preconceito, fingiu adotá-lo como filho, decisão tomada para evitar escândalos em respeito aos seus filhos.  Chiquinha e Joãozinho, como era carinhosamente chamado, mudaram-se para Lisboa onde permaneceram algum tempo. Retornaram ao Brasil, sem levantar suspeitas de viverem como marido e mulher. Esse romance só foi descoberto após a sua morte, através de cartas e fotos do casal.

JOÃO BATISTA FERNANDES LAGE






CHIQUINHA GONZAGA NAS PALAVRAS DE LUIZ PEIXOTO

O caricaturista, pintor, cenógrafo, revistógrafo, poeta (é autor dos versos de MARIA, música de Ary Barroso) e um dos primeiros estilistas de carrocerias de automóvel, Luiz Peixoto, fala de sua experiência no teatro musicado ao lado de Chiquinha Gonzaga:
- Eu não tinha mais de dezoito anos quando procurei o empresário Pascoal Segreto, em 1912, para que ele visse os originais da revista Forrobodó.  Pascoal era uma espécie de dono do teatro burlesco da época. Fui a ele junto com o outro autor do texto, Carlos Bittencourt. Evidentemente Pascoal nem tomou conhecimento da nossa existência. Foi ai que alguém nos falou de Chiquinha Gonzaga.
Ela morava na hoje Rua Pedro I, na Praça Tiradentes, e não se fez de rogada, nos recebeu, foi para o piano com as letras e o roteiro da peça, e imediatamente começou a compor. Para mim e para o Carlos aquilo era quase um sonho.  Ela, entrando nos 70 anos, dona de uma vitalidade incrível, imediatamente começou a trabalhar na peça e, se não fosse ela, Forrobodó não seria levada à cena. Tudo terminado, Chiquinha nos levou de novo ao Pascoal Segreto, e como tinha grande ascendência sobre o empresário, praticamente o obrigou a encenar a peça. Lembro ainda que para a montagem não houve necessidade de maiores investimentos. Os cenários foram aproveitados de outras peças. E para a vestimenta só houve um problema: foi preciso arranjar uma casaca para um dos personagens.
Quando conheci Chiquinha, ela era uma velhinha baixa, vestida como homem. Uma reedição da George Sand. Costume fechado até o pescoço, chapéu e bengala. Apesar dos seus setenta anos, a mesmo tempo em que cantarolava os tanguinhos brasileiros em moda, dançava com uma desenvoltura de fazer inveja. Era uma criatura risonha, pronta a ajudar quem a procurasse.
Um outro fato que me ligou muito a Chiquinha Gonzaga foi a apresentação que fiz dela a meu tio, o Maestro Leopoldo Miguez. Ela admirava meu tio havia muito tempo, e poder conhecê-lo pessoalmente no fim da vida foi uma grande alegria. Chiquinha Gonzaga era uma maestrina na acepção da palavra. Conhecia música profundamente e, se quisesse, poderia ter sido uma compositora erudita.


Chiquinha Gonzaga, a compositora popular, maestrina  e autora de partituras para peças ligeiras e revistas, que não hesitaria em largar o marido rico para ganhar a vida duramente, tocando ao lado de músicos do povo com festinhas de casas de família.






Fonte: Nova História da Música Popular Brasileira
            Abril Cultura 1977
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