sexta-feira, 4 de maio de 2018

CHIQUINHA GONZAGA - V - LUA BRANCA - CHIQUINHA E JOÃO BATISTA LAGE






Corta-Jaca (partitura)



Por volta de 1900, Chiquinha conhece a irreverente artista Nair de Tefé Von HoonHoltz a primeira caricaturista mulher do mundo, uma moça boêmia, embora de família nobre,da qual se torna grande amiga. Chiquinha viaja pela Europa entre 1902 e 1910, tornando-se especialmente conhecida em Portugal, onde escreve músicas para diversos autores. Logo após o seu retorno da Europa, sua amiga Nair de Tefé casa-se com o então Presidente da República Hermes da Fonseca, tornando-se primeira dama do Brasil. Após o término do mandato presidencial, o casal  Hermes da Fonseca e Nair de Tefé mudam-se para a França e em decorrência desse afastamento, Chiquinha e Nair acabam por perder contato.

A peça de dois novatos Luiz Peixoto e Carlos Bittencourt, depois uma das mais famosas duplas  de autores do teatro de revista carioca, – estreou em 11 de junho de 1912, para bater um recorde absoluto de permanência em cartaz na história do teatro de revista brasileiro: 1500 representações.
Na noite da estreia do original, encenado sob um clima de descrédito (a montagem custou apenas 125 mil-réis), até o ator Alfredo Silva, que faria o papel de um engraçado guarda-noturno, manifestava o seu medo do fracasso.




- Não se impressione – disse-lhe então nos bastidores a confiante Chiquinha Gonzaga- , esta peça vai dar muito dinheiro para todos nós! E vocês vão ficar com caras de bobos...
Essa frase profética de Chiquinha seria usada por ela mesma para atribuir um segundo nome à composição-título da peça, que passou a ser indicado nas partituras “tango Não se impressione”, embora todos continuassem a chamá-lo, como desde o início, de Forrobodó. Foi o tema dessa composição que o músico erudito francês Darius Milhaud ouviu cantado e assobiado pelas ruas do Rio de Janeiro em 1917, quando servia com o embaixador e poeta Paul Claudel no Brasil. E pensando, talvez, que se tratasse de música do folclore, aproveitou-o em 1924 no seu poema sinfônico sobre temas brasileiros, intitulado Le Boeuf sur le toit ( O boi no Telhado).






Ó lua branca de fulgores e de encanto
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
Vem tirar dos olhos meus o pranto
Ai! vem matar essa paixão que anda comigo.

Ai!  por quem és, desce do céu, ó lua branca
Essa amargura do meu peito, ó vem, arranca
Dá-me o luar de tua compaixão
Oh! vem por Deus, iluminar meu coração.

E quanta vezes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite calma e constelada
A sua luz, então, me surpreendia
Ajoelhado junto aos pés da minha amada.

E ela a chorar, a soluçar, cheia de pejo
vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo
Ela partiu, me abandonou assim
Oh! lua branca, por quem és, tem dó de mim.

Modinha integrante da burleta Forrobodó, foi composta, ao que consta, em algumas horas, às vésperas da estreia, transformando-se num dos maiores sucessos de Chiquinha Gonzaga. O estilo é da velha modinha provinda do Império, mas revelando a contribuição muito particular da concepção melódica de Chiquinha.
LUA BRANCA - MARIA BETHANIA


Para Chiquinha Gonzaga, que desde 1917, com a criação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, SBAT, transformara-se numa espécie de figura simbólica do teatro musicado, era uma glória que ia muito além das ambições de quem já dizia desejar como epitáfio apenas duas palavras: “Sofreu e chorou”.  Mas foi afinal cercada dessa glória que Chiquinha Gonzaga viveu até às vésperas do carnaval de 1935 ( ela morreu a 28 de fevereiro, numa antevéspera do chamado sábado magro do carnaval). Caminhava então para os 89 anos, e sua única distração era comparecer diariamente à SBAT para tomar conhecimento das pequenas intrigas do meio teatral, o que a levou a responder, em seus últimos anos de vida, ao Maestro Francisco Braga, que lhe perguntara se ainda compunha muito:


- Qual o quê! Agora só descomponho!..



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Aos 52 anos de idade, Chiquinha conheceu João Batista Fernandes Lage, um jovem português, com 16 anos de idade,  aprendiz de música, por quem se apaixonou. Para viver um grande amor, temendo o preconceito, fingiu adotá-lo como filho, decisão tomada para evitar escândalos em respeito aos seus filhos.  Chiquinha e Joãozinho, como era carinhosamente chamado, mudaram-se para Lisboa onde permaneceram algum tempo. Retornaram ao Brasil, sem levantar suspeitas de viverem como marido e mulher. Esse romance só foi descoberto após a sua morte, através de cartas e fotos do casal.

JOÃO BATISTA FERNANDES LAGE






CHIQUINHA GONZAGA NAS PALAVRAS DE LUIZ PEIXOTO

O caricaturista, pintor, cenógrafo, revistógrafo, poeta (é autor dos versos de MARIA, música de Ary Barroso) e um dos primeiros estilistas de carrocerias de automóvel, Luiz Peixoto, fala de sua experiência no teatro musicado ao lado de Chiquinha Gonzaga:
- Eu não tinha mais de dezoito anos quando procurei o empresário Pascoal Segreto, em 1912, para que ele visse os originais da revista Forrobodó.  Pascoal era uma espécie de dono do teatro burlesco da época. Fui a ele junto com o outro autor do texto, Carlos Bittencourt. Evidentemente Pascoal nem tomou conhecimento da nossa existência. Foi ai que alguém nos falou de Chiquinha Gonzaga.
Ela morava na hoje Rua Pedro I, na Praça Tiradentes, e não se fez de rogada, nos recebeu, foi para o piano com as letras e o roteiro da peça, e imediatamente começou a compor. Para mim e para o Carlos aquilo era quase um sonho.  Ela, entrando nos 70 anos, dona de uma vitalidade incrível, imediatamente começou a trabalhar na peça e, se não fosse ela, Forrobodó não seria levada à cena. Tudo terminado, Chiquinha nos levou de novo ao Pascoal Segreto, e como tinha grande ascendência sobre o empresário, praticamente o obrigou a encenar a peça. Lembro ainda que para a montagem não houve necessidade de maiores investimentos. Os cenários foram aproveitados de outras peças. E para a vestimenta só houve um problema: foi preciso arranjar uma casaca para um dos personagens.
Quando conheci Chiquinha, ela era uma velhinha baixa, vestida como homem. Uma reedição da George Sand. Costume fechado até o pescoço, chapéu e bengala. Apesar dos seus setenta anos, a mesmo tempo em que cantarolava os tanguinhos brasileiros em moda, dançava com uma desenvoltura de fazer inveja. Era uma criatura risonha, pronta a ajudar quem a procurasse.
Um outro fato que me ligou muito a Chiquinha Gonzaga foi a apresentação que fiz dela a meu tio, o Maestro Leopoldo Miguez. Ela admirava meu tio havia muito tempo, e poder conhecê-lo pessoalmente no fim da vida foi uma grande alegria. Chiquinha Gonzaga era uma maestrina na acepção da palavra. Conhecia música profundamente e, se quisesse, poderia ter sido uma compositora erudita.


Chiquinha Gonzaga, a compositora popular, maestrina  e autora de partituras para peças ligeiras e revistas, que não hesitaria em largar o marido rico para ganhar a vida duramente, tocando ao lado de músicos do povo com festinhas de casas de família.






Fonte: Nova História da Música Popular Brasileira
            Abril Cultura 1977
Imagens: Google
Vídeo: Youtube


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