sábado, 14 de agosto de 2021

ARY BARROSO - PARTE V - ARY - HOMEM PÚBLICO - EM HOLLYWOOD COMPOSITOR, VEREADOR NO RIO.


 

Carlos Lacerda foi o candidato a vereador mais votado no Rio de Janeiro em 1946. Logo depois dele, Ary Barroso, que entrara para a UDN  convidado por Heitor Beltrão e Mário Martins. Levava para a Câmara seu talento de polemista e, para a política, a mesma paixão com que irradiava os jogos de futebol. 
A grande batalha que venceu foi a da construção do Estádio do Maracanã. Lacerda queria que ele fosse construído na Restinga de Jacarepaguá , obstruindo outras iniciativas. Mas Ary conseguiu que o local aprovado fosse o do terreno do Derby Club (onde hoje está o “maior do mundo”).  As verbas eram poucas, mas Lacerda era contra a venda de cadeiras cativas.
Ary mobilizou todas as armas para vencer a batalha. Para obter o apoio na bancada majoritária (Partido Comunista, dezoito vereadores) pediu, com João Lyra Filho, uma pesquisa de IBOPE. Resultado: 88 % da população apoiava a construção do estádio. E o Maracanã foi construído.  A tempo de ver o Brasil perder a Copa de 1950...
Ary sempre foi um batalhador, defendendo apaixonadamente as coisas que julgava certas. Esteve sempre na linha de frente da defesa do direito autoral.  Era conselheiro da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), quando sentiu, com outros compositores, a necessidade de criar uma entidade que cuidasse especificamente dos autores de música. Fundaram (1942) a União Brasileira de Compositores, da qual Ary foi o primei presidente.
Em 1946 surgia a SBACEM (Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Editores de Música), à  qual Ary logo aderiu, sendo praticamente seu primeiro presidente. Pelo trabalho que realizou em defesa do direito autoral, foi aclamado Presidente de Honra e Conselheiro Perpétuo dessa entidade.
O resultado dessa luta foi benéfico para todos os autores de música no Brasil. O próprio Ary, pela popularidade e pelo imenso número de gravações de suas músicas, aparecia no no anuário  da SBACEM de1957 como o segundo compositor que mais recebera direitos autorais( o primeiro: Haroldo Lobo).
Ao lado da luta pelos compositores, Ary esteve sempre em campo para defender a própria música brasileira. Prestigiava os calouros que cantavam nossa música, tinha horror aos “acordes americanos em samba”,  nas várias vezes em que foi ao exterior preocupou-se em levar o samba autêntico. Quando fez RISQUE, em 1952, música que representava uma volta aos sambas menos pretensiosos, teve que brigar para que não fosse gravado em ritmo de bolero.
No início da década de 60 Ary era um homem descontente e amargurado com os ritmos da nossa música e do gosto popular. “Nunca o samba esteve tão por baixo. Chegamos à era do bolero, do rock, chá-chá-chá, twist e outras torceduras”.  A princípio não gostava da bossa-nova e, diante das considerações do amigo Davi Nasser, explicando que eles estavam velhos e superados, gritava: “ Sei disso. Sei disso. Mas por que não tocam a minha música? Não é boa também?” O que não o impediu de colocar A FELICIDADE,  de Tom e Vinicius, entre as melhores músicas populares de todos os tempos.
Ary era assim: impulsivo, orgulhoso, sempre pronto a criticar violentamente as coisas que julgava erradas. Um dia, num bar do Leme, levantou-se de repente da mesa e telefonou para casa. Eram 2 da madrugada e ele disse para Flávio Rubens, o filho sonolento que atendeu: “ Dê um pulo aqui”. Flávio chegou correndo, imaginando tragédias. Ary, copo de uísque na mão, ar melancólico, disse:

-Você sabe que Mariúza está namorando o Isaac Zuckemann?

- que tem isso, papai?
-Minha filha namorando um bêbado!
Mas o senhor também bebe, papai.
- Mas eu não vou me casar com a Mariúza!

E Isaac, Ary fazia questão de citar, era um de seus melhores amigos... Outra vez num bar da Avenida Atlântica, uma moça modesta resolveu prestar-lhe uma homenagem cantando Risque... Quando terminou, Ary, com a franqueza de sempre, disse: “A senhora acaba de assassinar minha música.  Se quiser me prestar uma homenagem, por favor, nunca mais cante Risque”. Pouco depois, aconselhado pelos amigos e dando-se conta da grosseria que cometera, Ary pediu desculpas à moça.

Seu encontro com o compositor Heitor Villa-Lobos, também famoso pelo gênio difícil, só poderia dar no que deu: briga. Num concurso de música, Vila não deu para Ary o primeir lugar que todos achavam que ele merecia. E os dois temperamentais romperam relações.  David Nasser, que recebera o prêmio do concurso, tentou reaproximar os dois. “ Voltar a ouvir aquele pilantra?”  protestava Vila –Lobos. “ Não quero nada com esse maluco”, reagiu Ary. E foi assim até o dia 7 de setembro de 1955, quando Ary e Vila-Lobos se encontraram no Palácio do Catete. Estavam lá com a mesma finalidade: receber a Ordem do Mérito que o Presidente Café Filho lhes concedera, Ary no grau de Oficial, Vila-Lobos no de Comendador. Diante da expectativa geral, os dois permaneciam de cara amarrada, cada um no seu canto. Até que David Nasser  disse para Ary:  “ O Vila me deu o prêmio porque eu precisava de dinheiro para operar meu irmão”.  “ Você jura?” inquiriu o autor da Aquarela. Nasser confirmou. Foi o suficiente para quebrar o gelo. Ary Abraçou Vila-Lobos, que desabafou, diante de Nasser:  “ Sua letra Davi, era uma porcaria”.

Não componho mais para o carnaval e todo mundo sabe por quê. Não sou homem de andar por aí pedindo para tocarem as minhas músicas. Nem vou dar dinheiro para ninguém botar meu disco na vitrola. 
Autor de tanto sucessos, Ary Barroso recusava entrar no jogo desonesto da promoção de músicas carnavalescas. Vencedor  de concurso julgado livremente pelo povo, afastava-se da indústria do carnaval.
Não era apenas esse o motivo de sua ausência no carnaval de 1964. Desde 1961 estava doente (cirrose hepática) e vivia afastado do Rio, em seu sítio  de Araras (RJ).  Chegou a retomar seu programa na TV – Encontro com Ary - , ainda enfrentou mais uma briga quando a Ordem dos Músicos ameaçou  proibir a execução e irradiação de suas composições, mas a doença não o deixava.
Em fevereiro de 1964 seu estado de saúde piora e ele é recolhido ao hospital. Telefona para David Nasser anunciando que vai morrer.
-Como é que você sabe, Ary?
- Estão tocando as minhas músicas.
José Maria Scassa, companheiro de Ary  no rádio durante vinte anos, vai visitá-lo e o encontra cantando:
- Estou cantando Scassa, porque o silêncio da morte é fogo.

Domingo, 9 de fevereiro de 1964, 21.50 horas: Ary Barroso morreu.

A notícia espalha-se de norte a sul, paralisa bailes, silencia foliões, abala o país.  Por um momento os tamborins se calam, a multidão se entreolha. A Escola de Samba Império Serrano hesita em entrar na avenida.

Mas o carnaval não deve parar. Os bailes prosseguem, o povo dança e na avenida a Escola desfila a sua AQUARELA BRASILEIRA.

                É PRECISO CANTAR PARA VENCER O SILÊNCIO DA MORTE.


 
Fonte: NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
Abril Cultural – 2ª Edição – 1977
Fotos:  GOOGLE


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