quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

OS PRIMITIVOS NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA -PARTE V-JOSÉ LUIZ DE MORAIS – ERNESTO DO SANTOS – JOÃO MACHADO GUEDES –

 

OS PRIMITIVOS – PARTE V

        JOSÉ LUIZ DE MORAIS –o CANINHA (1883-1961)

        ERNESTO DO SANTOS – o DONGA (05/04/1890- 25/08/1974)

            JOÃO MACHADO GUEDES – o JOÃO DA BAIANA (1887-19740

 

Nos últimos anos do século XIX, as principais cidades brasileiras assistiram ao despertar da consciência das camadas mais humildes da sociedade.  Inferiorizados até 1888 pela existência da escravidão, os trabalhadores livres da era republicana começaram a disputar um lugar na sociedade, o que no campo do lazer, se evidenciou por uma crescente participação na festa do carnaval, transformada pela classe média numa imitação da brincadeira europeia, à base de desfiles de carros alegóricos, corsos e batalhas de flores. Os integrantes dessas populações predominantemente negras e mestiças mais integradas na estrutura econômica das cidades, como os empregados das fábricas e pequenos burocratas, organizaram-se principalmente no Rio de Janeiro em sociedades recreativas denominadas ranchos, e passaram a sair no carnaval produzindo um tipo de música orquestral que acabaria fazendo nascer as marchas de rancho – e, em decorrência delas, as marchas-ranchos.

Os mais pobres, porém, onde a cor negra predominava (era o mestiço que invariavelmente galgava os primeiros degraus da escala social), continuaram a exercitar-se nos seus batuques e rodas de pernadas ou de capoeira (nome preferido na Bahia). Essa parte da população não saía no carnaval de forma organizada, mas em cordões desordenados, cujos desfiles, terminavam quase sempre numa esfuziante coreografia de rabos-de-arraia e em coloridas cenas de sangue.
No entanto, ia ser da música à base de percussão produzida por esses negros com o nome de “batucada” que ia nascer o gênero popular mais nacionalmente representativo da música brasileira:
O SAMBA. Três dos mais velhos representantes seriam CANINHA, JOÃO DA BAIANA e DONGA, dos quais os dois últimos ainda chegaram à década de setenta do século XX, não apenas como sobreviventes de uma era extinta, mas continuando a demonstrar a validade da sua arte em espetáculos evocativamente denominados da “velha guarda”.

 

JOSÉ LUIZ DE MORAIS – O CANINHA

(Rio de Janeiro 06/07/1883 – Rio de janeiro 16/06/1961)


 

O mais antigo, JOSÉ LUIZ DE MORAIS, o CANINHA chamado em criança de Caninha Doce (porque vendia roletes de cana na zona da estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, no Rio de Janeiro), aprendeu a música dos negros durante as batucadas realizadas na Festa da Penha. Nos anos 20, foi aclamado “IMPERADOR DO SAMBA”.   Em 1932, quando essa população de descendentes de escravos foi obrigada a morar em casebres no alto dos morros do Rio de Janeiro –compôs o samba É BATUCADA, que valia por uma aula de história da música popular, e venceu o primeiro concurso de sambas e marchas. 

É Batucada

Samba de morro, não é samba,

é batucada, é batucada, é batucada...
Cá na cidade, a Escola é diferente,
                                                    Só tira samba/ malandro que tem patente.
Nossas morenas
Vão pro samba bonitinhas
Vão de sandália
E saiote de preguinhas 

Seu primeiro sucesso foi GRIPE ESPANHOLA – maxixe, seguido de NINGUÉM ESCAPA DO FEITIÇO . QUEM VEM ATRÁS FECHA A PORTA e QUE VIZINHA DANADA.

É BATUCADA, música feita para o carnaval de 1933, enfoca um problema que se tornou polêmico. Segundo o autor Caninha e seu misterioso parceiro Visconde de Pycohiba, “samba de morro não é samba, é batucada”, só vira sambo no momento em que chega à cidade.  É BATUCADA deu aos seus autores o prêmio do primeiro concurso oficial de músicas carnavalescas do Rio de Janeiro. E o intérprete, apresentado no selo do disco como Antonio Moreira da Silva, apenas começava sua carreira, depois firmada como uma das mais importantes na divulgação do samba-de-breque.


                               ERNESTO  JOAQUIM MARIA DOS SANTOS  (DONGA)

(Rio de Janeiro 05/04/1890 – Rio de Janeiro – 25/08/1974)



De fato, quando   ERNESTO DOS SANTOS, o Donga,  o mais novo desses três pioneiros, realiza em 1917, sob o nome de samba, o arranjo de motivos populares que intitulou PELO TELEFONE, sua primeira providência é registrar música e letra na Biblioteca Nacional – o que equivalia mesmo a tirar patente. A atitude de Donga significa que, coincidindo com o aparecimento do samba, a música popular, como criação destinada ao entretenimento da massa, tinha atingido o estágio de produto comercial capaz de ser vendido e de gerar lucros.

A letra original da canção, que era “O chefe da folia/ Pelo telefone / Mandou me avisar / Que com alegria / Não se questione / Para se brincar”, foi alterada para a versão mais conhecida hoje em dia, "O Chefe da Polícia / Pelo telefone/ Manda me avisar/ Que na Carioca / Tem uma roleta/ Para se jogar". Segundo depoimento de Donga para o Museu da Imagem e do som (MIS), “O Chefe da Polícia… foi uma paródia feita pelos jornalistas de A Noite”. Repórteres do jornal tinham, em 1913, posto uma roleta no Largo da Carioca, para demonstrar a tolerância da polícia com o jogo. Em abril de 1913, o chefe de polícia do Rio de Janeiro havia declarado que o jogo permaneceria liberado “até que o governo resolvesse o contrário". Henrique Foréis Domingues, o Almirante, em matéria no jornal O Dia, em 13 de fevereiro de 1972, também confirma essa versão: “alguém lá na redação de “A Noite”, inspirando-se nos episódios em questão, criou a famosa paródia”
O crescimento da indústria do disco, e logo o aparecimento do rádio, seguidos mais tarde do cinema e da televisão, provaram que Donga tinha sido um pioneiro esperto ao correr à repartição oficial para “tirar patente”.Como violonista Donga integrou  o grupo 8 BATUTAS e em 1926 integrou a Banda de Carlito Jazz. Donga viveu  seus últimos anos como funcionário aposentado da Justiça, doente e quase cego, num subúrbio do Rio de Janeiro.

                                                       

                                                                        PELO TELEFONE

                                                                            O chefe da folia

                                                                             Pelo telefone
                                                                             Manda me avisar
                                                                             Que com alegria
                                                                             Não se questione
                                                                             Para se brincar
                                                                             Ai, ai, ai
                                                                             Deixe as mágoas para trás, oh rapaz
                                                                             Ai, ai, ai
                                                                             Fica triste se és capaz e verás
                                                                             Tomara que tu apanhes
                                                                             Pra não tornar fazer isso
                                                                             Tirar amores dos outros
                                                                             Depois fazer feitiço
                                                                             Ah, se a rolinha, sinhô, sinhô
                                                                             Se embaraçou, sinhô, sinhô
                                                                             É que a vizinha, sinhô, sinhô
                                                                             Nunca sambou. Sinhô, sinhô
                                                                             Porque este samba, sinhô, sinhô
                                                                             De arrepiar, sinhô, sinhô
                                                                             Põe perna bamba, sinhô, sinhô
                                                                             Mas faz rodar
                                                                             Sinhô, sinhô

                                                                             O peru me disse

                                                                             Se morcego visse
                                                                             Não fazer tolice
                                                                             Ou então saísse
                                                                             Dessa esquisitice
                                                                             De disse, não disse,
                                                                             Ai, ai, ai
                                                                             A estátua do ideal triunfal
                                                                             Ai, ai, ai
                                                                             Viva o nosso carnaval sem rival
                                                                             Ninguém tira amor do poço
                                                                             Por Deus foste castigado
                                                                             O mundo estava vazio
                                                                             E o inferno habitado
                                                                            Queres ou não, sinhô, sinhô
                                                                            Ir por cordão, sinhô, sinhô.
                                                                            E ser folião, sinhô, sinhô
                                                                            De coração, sinhô, Sinhô.


JOÃO MACHADO GUEDES – JOÃO DA BAIANA

(Rio de janeiro 17/5/1887 - Rio de janeiro 12/01/1974) 




 Mas, o exemplo da vida do mais velho sobrevivente da geração que criou o samba a partir da batucada, JOÃO MACHADO GUEDES (chamado JOÃO DA BAIANA, porque era filho da baiana Perciliana de Santo Amaro), veio mostrar que essa esperteza ia valer para todos, menos para os que criaram o próprio samba. Fiscal da Marinha, recusou viajar com Pixinguinha e os Oito Batutas para não perder o emprego.

Recolhido à Casa dos Artistas de Jacarepaguá, na zona rural carioca, João da Baiana passou o fim de seus dias de uma forma não muito diferente daquela que descreveu com bom humor no seu samba de maior sucesso, o Cabide de Molambo, composta em 1917, um samba corrido. A letra e o título da música são calcados na figura de um malandro que tinha como apelido “cabide de molambo”. Era alfabetizado, quase poeta, mendigo, mas servidor de amigos, e João da Baiana o conheceu na tendinha do Tinoco, na Gamboa.
Apesar de ser conhecida popularmente, a música só recebeu a primeira gravação em 1933, quinze anos depois de ter sido composta.

Meu Deus, eu ando

Com o sapato furado
Tenho a mania
De andar engravatado
A minha cama
É um pedaço de esteira
E é uma lata velha
Que me serve de cadeira
Minha camisa
Foi encontrada na praia
A gravata foi achada
Na ilha de Sapucaia
Meu terno branco
Parece casca de alho
Foi a deixa de um cadáver
Do acidente no trabalho
O meu chapéu
Foi de um pobre surdo e mudo
As botinas foi de um velho
Da revolta de Canudos
Quando eu saio a passeio
As damas ficam falando
- Trabalhei tanto na vida
Pro malandro estar gozando
A refeição
É que é interessante
Na tendinha do Tinoco
No pedir eu sou constante
E o português
Meu amigo sem orgulho
Me sacode o caldo grosso
Carregado de Entulho.

  

Fonte: Nova História da Música Popular Brasileira - 1978

           Abril Cultural
Fotos – GOOGLE -

 

 

 

OS PRIMITIVOS NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA - PARTE VI - HEITOR DOS PRAZERES

 

 

HEITOR DOS PRAZERES

(RIO DE JANEIRO 23/9/1898-RIO DE JANEIRO 04/10/1966)


 

Uma das mais completas figuras de criador das camadas populares foi o tocador de cavaquinho, ritmista, compositor e pintor carioca Heitor dos Prazeres, filho de descendentes de baianos da Cidade Nova, no Rio de Janeiro (o pai era o clarinetista Eduardo Prazeres, da Banda Policial; a mãe, a costureira Celestina).

Heitor surgiu para a pintura e a música ainda na infância, dividido entre os desenhos da Cartilha de Felisberto de Carvalho (que coloria com lápis) e o cavaquinho do tio, que ele tirava às escondidas do prego que o prendia à parede. -Na sala –lembrou mais tarde em seu depoimento no Museu da Imagem e do Som da Guanabara o próprio Heitor – havia também um piano, mas esse só era aberto nos dias de festa e aos sábados, para limpeza.
Após uma infância típica de menino das classes populares do Rio de Janeiro do final do século XIX (nasceu perto da Praça Onze de Junho, a 23 de setembro de 1898), passou por várias escolas, sempre expulso, foi preso por vadiagem aos treze anos e, “aprendiz de tudo”, trabalhou com tipógrafos, sapateiros e marceneiros, tornando-se mestre nessa profissão.
Quando podia largar a pua, Heitor pegava o cavaquinho e com outros rapazolas do tempo – entre os quais Donga e Caninha –ia apreciar os sambas na casa da baiana Tia Ciata, onde o maioral era o baiano criador dos primitivos ranchos cariocas, Hilário Jovino Ferreira. Integrado nesse meio de tiradores de samba de partido alto, Heitor (conhecido por MANO LINO, nas rodas de sambistas), saía de baiana no carnaval tocando seu cavaquinho, e em 1932 já firmava seu nome, vencendo, com o samba MULHER DE MALANDRO. Outro samba VOU TE ABANDONAR- surgiu logo após o carnaval de 1930 e mostrava forte emprego da  percussão.
Em 1933 fez a CANÇÃO DO JORNALEIRO, e a partir da letra autobiográfica deste tema, se iniciou uma campanha para financiar a construção da casa do PEQUENO JORNALEIRO,  que abriu em 1940.

                                                Olha  A NOITE,  Olha  A NOITE
                                                    Eu sou um pobre jornaleiro
                                                        que não tenho paradeiro
                                                        Ai, ninguém vive assim.
                                                        vivo a cercar toda gente
                                                        As vezes triste e doente
                                                     Ninguém tem pena de mim.

                                                          Eu vivo sempre a sofrer
                                                          Oh! que destino é o meu
                                                           Eu vivo sempre jogado
                                                              e bem amargurado
                                                       Oh! que sorte Deus me deu.

                                                  Olha  A NOITE,  olha  A NOITE
                                                   quando o sol vai se escondendo
                                                         eu vou me entristecendo
                                                           correndo pra redação
                                                           E lá venho carregado
                                                        com as folhas ao meu lado
                                                       Cumprindo a minha missão.

Quatro anos depois, quando morre sua primeira mulher, Mano Lino escreve uns versos sobre um pierrô apaixonado, que vivia só cantando, e de um encontro com NOEL ROSA sob os Arcos, perto da Lapa, nasce o seu primeiro grande sucesso nacional: a marcha PIERRÔ APAIXONADO.

                                                        Um pierrô apaixonado
                                                        Que vivia só cantando
                                                       Por causa de uma colombina
                                                   Acabou chorando, acabou chorando.

                                                    A colombina entrou num botequim

                                                      Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
                                                             Dizendo: pierrô cacete
                                                     Vai tomar sorvete com o arlequim.

                                            Um grande amor tem sempre um triste fim

                                                    Com o pierrô aconteceu assim
                                                        Levando esse grande chute
                                                  Foi tomar vermute com amendoim.

 É então que Heitor começa fazer desenhos para ilustrar as partituras de suas músicas, lançando-se a experiências com pintura a óleo em 1936. Em menos de dez anos teria a honra de ver um dos seus quadros incluído na mostra de arte brasileira em Londres, para a venda em benefício da Royal Air Force. Era a tela A FESTA DE SÃO JOÃO, diante da qual a Rainha Elizabeth perguntou: 

                                             QUEM É ESSE PINTOR EXTRAORDINÁRIO?

Premiado na I Bienal de São Paulo em 1951 com seu quadro MOENDA, o sambista-pintor (a esta altura contínuo do Ministério da Educação, por influência do poeta Carlos Drummond de Andrade), ainda tinha tempo para assinar o ponto na Rádio Nacional –cujo coro dirigia havia vinte anos –e para apresentar-se em shows com seu grupo de mulatas passistas intitulado HEITOR E SUA GENTE.

Na 2ª Bienal em 1953 teve uma sala reservada para a exposição de sua obra. Criou cenário e figurinos para o balé do 4º Centenário da de São Paulo.


                                                            PIERRÔ - Heitor dos Prazeres


Foi assim que a morte por câncer o encontrou no primeiro minuto da madrugada de 4 de outubro de 1964, atirado afinal, depois de toda uma vida de cores, ritmo e poesia como ele mesmo definiu – “sobre um leito branco como uma negra bandeira”.

Fonte: Nova História da Música Popular Brasileira

            Abril Cultural – 1978
Fotos: Google

sábado, 14 de agosto de 2021

ARY BARROSO - PARTE I - A TORTURA DO PIANO



 ARY BARROSO 


NÃO PERCAM! O ESPETÁCULO MAIS SENSACIONAL DE TODOS OS TEMPOS!

HOJE! GRANDE FUNÇÃO DO CIRCO BARROSO!

- Façam fila, façam fila! Cuidado para não derrubar o pavilhão!  O espetáculo já vai começar!

Na confusão, o porteiro vai recebendo os ingressos. Tarefa difícil: tem que conferir o número de palitos de fósforo, ou consultar a coleção para ver se já tem aquela bandeira. No Circo Barroso só se entra pagando dez palitos, ou contribuindo para a coleção de caixinhas de fósforos impressas com bandeiras de países.

As crianças acomodam-se nos caixotes que servem de arquibancada, na espera impaciente do espetáculo. Primeiro número: Ataul Brandão exibe-se em seu estranho trapézio, feito de uma gangorra. Em seguida, a grande atração: as feras domesticadas. Sobre um arame esticado, Loló, o gato, passeia de um lado para outro, com passos elegantes e sob a ameaça de pancadas do domador. Outro felino é obrigado a saltar através de um círculo de arame. Aplausos, batidas de pés, gritaria, terminou o “espetáculo mais sensacional de todos os tempos”.  Na saída, o inevitável acidente: um menino derruba a “lona”, sujando os lençóis  roubados da cômoda da Tia Ritinha. Ary, proprietário, bilheteiro e domador, reclama, o menino responde, quase sai briga. Mas logo o grupo se dissolve: está na hora da “pelada” no campinho ao lado da igreja. Ary guarda rapidamente os lençóis  e, segurando os óculos, sai correndo para não perder o lugar de goleiro.O menino Ary Barroso é assim: adora o circo de cavalinhos, a ponto de improvisar o seu próprio; com os óculos presos atrás das orelhas, pretende ser um bom goleiro míope; gosta de andar pelas ruas da cidadezinha, em busca de uma nova brincadeira, pronto para qualquer briga. O que não lhe agrada são as aulas diárias de piano que Tia Ritinha insiste em lhe dar. Três horas sentado num banquinho tocando “ cachorro vai, cachorro vem”  transformaram-se em tortura. 
Ary mora em Ubá, Minas Gerais, com a avó materna, Dona Gabriela Augusta de Resende, e tia Ritinha (Rita Margarida de Resende). Quando tinha seis anos (nasceu a 7 de novembro de 1903) perdeu a mãe, Angelina de Resende Barroso, vítima de tuberculose aos 22 anos.  O pai, Dr. João Evangelista Barroso, deputado estadual, promotor público em Ubá,  líder da campanha civilista de Rui Barbosa, duas semanas depois sucumbiu à mesma doença. Ary guardaria para toda a vida um grande medo da tuberculose. 
Dona Gabriela e Tia Ritinha eram muito religiosas e queriam que Ary se tornasse padre. Conseguiram até que ele aprendesse a ajudar  missa. Mas não puderam evitar que, numa noite, ele entrasse na igreja e amarrasse a corda do sino na cauda de um cavalo que mansamente pastava no campinho. E o animal deu alegres badaladas enquanto espantava as muriçocas com o rabo...
Avó e tia não possuíam recursos. Enquanto estudava, Ary precisava ganhar algum dinheiro. E assim, com apenas doze anos, foi ajudar Tia Ritinha a fazer no piano o fundo musical para as aventuras de Mae West e Tim McCoy, no cinema Ideal. Ganhava 5$000  por noite. Mais tarde passou a 30$000 por dia, trabalhando como caixeiro da loja  A BRASILEIRA,  onde chegou a permanecer durante seis meses.
Terminado o primário na escola do Professor Cícero Galindo, foi para o Ginásio São José. Não demorou, foi mandado para o ginásio da cidade de Viçosa. De lá foi para o de Rio Branco, de onde foi expulso por ter fugido do dormitório para ir a um baile.  O mesmo aconteceu na cidade de Leopoldina: 24 horas depois de chegar, tomou uma bebedeira com um novo colega e a punição foi imediata. Só conseguiu terminar o ginásio em Cataguases, na escola do Professor Antônio Costa. A esta altura já era um rapaz que ficava no Bar do Camilo tomando cerveja com Chico Bomba e Franco, ferroviários da Leopoldina, defendia o gol do Botafogo Futebol Clube de Ubá e desfilava no bloco Ubaenses e Estrelas para mágoa do resto da família, todos membros do bloco Dragões e Opalas. Não ficavam aí os problemas dos Resende: Ary arranjou uma noiva que não agradava à família e estava disposto a casar, embora tivesse só 17 anos. Tinha até o dinheiro: recebera 40:000$000 (quarenta contos de réis) de herança do Tio Sabino Barroso ( político influente que já fora até ministro da Fazenda). Ary era teimoso: não casou, cedendo à pressão familiar, mas abandonou Ubá, viajando para o Rio de Janeiro em 1921.

Fonte: NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA  
Abril Cultural – 2ª Edição – 1977
Fotos:  GOOGLE


ARY BARROSO - PARTE II- VIDA DIFÍCIL DE BACHAREL


VIDA DIFÍCIL DE BACHAREL

Com dinheiro no bolso, morando numa pensão de luxo, a vida estava fácil para o jovem Ary. Fez vestibular para a Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, sonhando com um futuro sem dificuldades.  Mas os melhores restaurantes, as melhores bebidas, as roupas mais elegantes acabaram com os 40:000$000 da herança. De Ubá, a família simplesmente informou que não podia sustentá-lo . Não havia alternativa: Ary teria que trabalhar.
Ainda bem que tia Ritinha insistira com suas aulas de piano. Como nos tempos de Ubá, Ary voltou a fazer o fundo musical para os filmes mudos. Das 14  às 18 h no cinema Íris; das 20 às 22 h no Odeon. O esforço rendia-lhe 24$000 por dia, uma pequena fortuna, na época.
Era 1923 e Ary, de manhã cursava o segundo ano de direito. Trabalhando o dia inteiro, não tinha tempo para estudar. Consequência: seu curso foi interrompido e retomado várias vezes.; Ary formou-se somente em 31 de janeiro de 1930, na mesma turma do cantor Mário Reis. Bom pianista, logo surgiram outras oportunidades. Ainda em 1923, tocou na orquestra da peça LUAR DE PAQUETÁ,  de Freire Júnior, encenada pela Companhia Alda Garrido no Teatro Carlos Gomes. Deixava de ser o pianista solitário das sessões de cinema para integrar-se nas grandes orquestras: a Trianon, de Alarico Paes Leme, a American-Jazz, de José Rodrigues, a Orquestra de J. Thomaz, a Jazz-Band Sul-Americana, de Romeu Silva. Esta última era a única em que os músicos vestiam casaca, tocando nos lugares frequentados pela alta sociedade do Rio, apreciadora da música americana.  O jazz dominava e Ary, de tanto ouvir, através de discos, os melhores pianistas do gênero, acabou se tornando também excelente intérprete.  Aliás, desde os tempos de Ubá que ele gostava de improvisar, nunca se limitando à linha melódica original.Saltando de orquestra em orquestra, Ary viu-se de repente sem emprego. Todas as vagas de pianista estavam ocupadas em bailes a 10$000 por hora, a metade do que ganhava em orquestras.
A situação só melhorou quando, em 1928, foi contratado pela orquestra do Maestro Spina, de São Paulo, para uma temporada em Santos e Poços de Caldas.  Ficou oito meses nas montanhas, tocando piano e fazendo estação de águas... Aproveitou também para se lançar decisivamente na composição, terreno em que já fizera alguns ensaios.

DA GROTA FUNDA AO RANCHO FUNDO

Ary  passou na Casa Carlos Wehrs (editora de músicas) para saber se alguém havia se interessado por suas composições. O gerente De  Vicenzi  informou:  “ O Dr. Olegário Mariano e o Luís Peixoto levaram algumas músicas suas, Ary.  Dê um pulo ao Teatro Recreio e fale com eles”.Lá ensaiavam Laranja da China,  revista de Olegário Mariano, dirigida por Luís Peixoto. Ary timidamente apresentou-se ao diretor, que lhe deu a boa notícia: duas músicas suas tinham sido incluídas na peça (VAMOS DEIXAR DE INTIMIDADE  e  VOU À PENHA)  e seriam interpretadas por Araci Cortes e Zaíra Cavalcanti.  Além disso, gostando da maneira de tocar piano de Ary, influenciada pelos pianistas americanos, Luís perguntou: “ Você sabe fazer foxtrotes?”  Ary disse que sabia, embora jamais houvesse feito um. Então traga-me  para o ensaio de amanhã, à 1 da tarde, seis foxtrotes.

E agora, que fazer?  Ary estava com violenta furunculose e ardia em febre. Mas não podia perder a oportunidade.  Foi para casa, uma pensão da Rua André Cavalcanti, e sentou-se ao piano. Enfraquecido e tonto, esforçou-se para se concentrar.  Finalmente, já noite, começou o trabalho. Além do estado de saúde, tinha que suportar o protesto dos vizinhos, que não podiam dormir com o barulho. Ás 5 da manhã completou o último fox e à 1 em ponto, com enormes olheiras,  estava no Teatro Recreio, esperando ansioso o julgamento de Luís Peixoto.
O esforço foi compensado. Peixoto gostou das músicas e logo colocou letra nos seis foxtrotes. Um deles, FEBRE AZUL, ficou  famoso por motivos extramusicais. Durante o quadro em que era apresentado, as coristas espargiam sobre os espectadores uma colônia recém-lançada no mercado, causando protestos dos cavalheiros. 
Com Laranja da China, Ary Barroso, que fizera sua primeira música – DE LONGE – aos quinze anos, tornou-se conhecido como compositor. VOU À PENHA foi gravada, no fim de 1928, por seu colega de faculdade Mário Reis.  O Teatro Recreio  ofereceu-lhe um contrato de 1:500$000 por mês  para musicar futuras peças, como Brasil do Amor, onde estreou Sílvio Caldas, cantando Faceira, e É do balaco-baco, revista do caricaturista J. Carlos. Para esta última, Ary fez uma música que recebeu letra de J. Carlos, com o título de NA GROTA FUNDA: “ Na grota funda, na virada da montanha, só se fala na façanha do mulato da Remunda...” O compositor Lamartine Babo, assistindo à estreia, ficou impressionado com a melodia. No dia seguinte, ao se apresentar com o Bando  de Tangarás na Rádio Educadora, lançou, sem pedir licença, a composição de Ary  com nova letra: “ No Rancho Fundo, bem pra lá no fim do mundo, onde a dor e a saudade contam coisas da cidade...”  Começava a parceria Ary-Lamartine  (Palmeira triste, Na virada da montanha, Grau Dez)  e a briga com J. Carlos , pois o caricaturista pensou que Ary dera a música para Lamartine e nunca aceitou explicações. Não foi o único caso de troca de letra. Em 1932 para uma revista de Luís Peixoto e Freire Júnior, Ary apresentou uma composição que dizia: “Bahia/cheguei hoje da Bahia/ Trouxe uma figa de Guiné...”  Luís Peixoto não gostou e escreveu nova letra: “ Maria/ o teu nome principia/ na palma da minha mão...”






Fonte: NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Abril Cultural – 2ª Edição – 1977
Fotos:  GOOGLE

ARY BARROSO - PARTE III - PRÊMIO DE CONCURSO: CASAMENTO - O HOMEM DOS SETE MICROFONES

 

De pensão em pensão, Ary foi parar na Rua André Cavalcanti, nº 50, e gostou muito do lugar. Não só das acomodações, mas também da filha da dona da pensão.  Era 1929 e Ary Barroso resolveu casar. Mas onde estava o dinheiro para montar a casa, se seu salário no teatro mal dava pra os gastos diários?

O compositor Eduardo Souto  - que muito influenciou a obra de Ary  -  sugeriu uma solução: ganhar o concurso de músicas carnavalescas que a Casa  Edison  estava promovendo.  Ary gostou da ideia e escreveu a marchinha DÁ NELA,  cuja letra era um violento ataque às mulheres linguarudas: “ Esta mulher há muito tempo me provoca.../ Dá nela! Dá nela! É perigosa, fala mais que pata-choca.../ Dá nela! Dá nela!.   No dia 18 de janeiro de 1930, o público que lotava o Teatro Lírico vibrava com as músicas de Pixinguinha, Sinhô, Donga.  Mas DÁ NELA sobrepujou  a todas e os novecentos votantes da plateia deram-lhe a vitória com trezentos votos de diferença para a segunda colocada.  Gravada por Francisco Alves, foi o maior sucesso do carnaval de 1930.
Os 5:000$000 de prêmio foram mais do que suficientes para Ary pagar as despesas com o diploma de bacharel em direito – recebido a 31 de janeiro – e casar com Ivone Belfort de Arantes a 26 de fevereiro. Mas o dinheiro que ganhava tocando piano e compondo não permitiria uma vida folgada para o casal. 

O HOMEM DOS SETE MICROFONES

Com o diploma debaixo do braço, Ary foi a Belo Horizonte, onde um tio, o Deputado Alarico Barroso, lhe conseguiu  uma  nomeação para juiz municipal de Nova Rezende. O futuro estava garantido. Só que quinze dias depois Ary voltou para o Rio: chegara à conclusão de que não nascera para juiz, que sua vida estava definitivamente ligada à música.

O tenor Machado del Negri, pronto para ensaiar um trecho de Marta, ópera de Flotow, perguntou para Renato Murce, produtor do programa Horas do Outro Mundo:
- Onde está o pianista?
Renato apresentou Ary e o tenor não gostou:  -Este rapaz é do samba. Ele não conhece música clássica! - Coloca a partitura no piano que ele acompanha.
Ary tocou perfeitamente e o tenor teve que pedir desculpas. Era 1932 e Ary  Barroso ingressava na Rádio Philips a convite de Renato Murce.  A princípio simples pianista, logo se tornaria  locutor, humorista, animador e locutor esportivo.
Tudo começou com o terceiro lugar conseguido num concurso de locutores. Ficou trabalhando na Philips e logo arranjou briga: criticou pelo microfone Sodré Viana e Henrique Pongetti, que haviam elogiado um filme em que a rumba aparecia como música brasileira. Formou-se uma polêmica, como tantas outras que Ary  promoveria mais tarde.
Depois da Philips, Ary foi para a Mayrink Veiga, e de lá para a Cosmos, em São Paulo.  Relembrando o tempo em que contava piadas no intervalo das revistas que musicava, transformou-se em humorista, trabalhando com Luís Peixoto e Gagliano Netto. Voltando para o Rio, foi para a Cruzeiro do Sul. Seus companheiros:  Heber de Bôscoli, Paulo Roberto e Edmundo Maia, que era o “sonoplasta”, imitando trovão, latido de cachorro, etc...
Os programas de calouros de Ary Barroso ficaram famosos pelos disparates que os candidatos diziam e pelo gongo, inovação de Ary que, no princípio, quando o programa começou na Rádio Cruzeiro do Sul (1937), era um sino.  Ary brincava com os calouros, fazendo os ouvintes se divertirem com os absurdos ditos ao microfone. Quando passou para a Tupi, instituiu o gongo, que era tocado pelo auxiliar de portaria da rádio, Macalé. O calouro desafinava e Ary fazia um discreto gesto – coçar a cabeça, segurar o botão do paletó – e Macalé já sabia: gongo nele!
Preocupado em defender a música brasileira, não gostava quando um calouro cantava Fox, bolero ou tango. E exigia que anunciassem o autor da música, procurando prestigiar os compositores. Essa exigência motivou várias confusões engraçadas, algumas com seus próprios sambas. O calouro anunciava que ia cantar um “sambinha” de autor desconhecido: AQUARELA DO BRASIL... Ou se espantava: “ Ué, RISQUE não é da Linda Batista?” . Outro, que ia cantar composição de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, anunciou apenas o nome do poeta. Ary perguntou: “ e o Tom?”  Resposta: “ Sol maior”. 
Cantores famosos, como Angela Maria e Lúcia Alves começaram em seu programa, que chegou a ser transmitido pela televisão. Mas, Ary, desgostoso com o pouco tempo que lhe davam na TV Tupi (25 minutos), acabou encerrando o programa definitivamente.





Fonte: NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Abril Cultural – 2ª Edição – 1977
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ARY BARROSO - PARTE IV- UM SAMBA CHEIO DE INOVAÇÕES

 

As múltiplas atividades que desenvolvia para se sustentar não sufocaram o compositor Ary Barroso. Pelo contrário: tornou-se um dos mais férteis criadores de nossa música, revelando a cada ano novos sucessos. Em 1931, Silvio Caldas gravava FACEIRA, BAHIA, UM SAMBA EM PIEDADE. Nos anos seguintes, o mesmo cantor lança MARIA, SEGURA ESTA MULHER, EU VOU PRO MARANHÃO, TU, POR CAUSA DESSA CABOCLA.  Outras músicas surgiam na voz de Elisinha Coelho, cuja interpretação de NO RANCHO FUNDO Ary considerava das melhores feitas com suas composições, ao lado de CAMISA AMARELA, por Aracy de Almeida. 
Em 1934, Ary foi à Bahia como pianista da Orquestra Napoleão Tavares e ficou encantado com a “boa terra”. Baianas, comidas, ladeiras seriam revividas mais tarde em algumas de suas músicas mais conhecidas: NO TABULEIRO DA BAIANA, QUANDO EU PENSO NA BAHIA, NA BAIXA DO SAPATEIRO, OS QUINDINS DE IAIÁ.  Exceção desta última, gravada por Ciro Monteiro, as outras foram interpretadas por Carmen Miranda, a “baianinha” que dividia com Francisco Alves a preferência do público da época.  BONECA DE PIXE (letra de Luís Iglesias) e COMO “VAES” VOCÊ  também foram gravadas por Carmen Miranda, que se tornara uma grande amiga de Ary. 
Numa noite chuvosa de 1939, Ary conversava com a esposa e um casal de cunhados quando se dirigiu para o piano, dizendo: “ Vou fazer um samba cheio de inovações...” Começou imitando no teclado a batida de um tamborim e meia hora depois música e letra estavam prontas. O cunhado não gostou da letra: “ COQUEIRO QUE DÁ COCO” QUE QUERIA QUE ELE DESSE?”  Ary não se importou com a crítica. Estava satisfeito com a letra que exaltava o bom e o belo do Brasil, contrapondo-se às tradicionais estórias de malandragem, bebida, dinheiro, amores fracassados que dominavam o samba. Levou a nova composição para uma peça de Edmundo Lys. Cantada por Aracy Cortes, passou despercebida. Pouco depois Aracy de Almeida desistia de gravá-la  porque exigia grande orquestra em vez de regional. A música voltou ao teatro em Joujoux e Balangandãs, de Henrique Pongetti, interpretada por Cândido Botelho. Desta vez foi muito bem recebida pelo público e logo levada a disco por Francisco Alves, ocupando os dois lados de um 78 rotações. Era outubro de 1939.  Desde então  AQUARELA DO BRASIL  tornou-se sucesso, tendo mais de cem gravações no Brasil, sem falar nas do exterior, dos Estados Unidos à França, do México às Filipinas, da Alemanha à Nova Zelândia.
- Naturalmente em princípio eu sofria influência do Sinhô. Seguida pela fase que eu chamo de Eduardo Souto. Foram estes dois que me acompanharam musicalmente no começo da minha carreira.  Depois eu consegui me libertar e criei um estio todo pessoal, cujo início poderá ser marcado com FACEIRA (...) . Nessa fase eu era mais ingênuo, mais puro, mais autêntico. Depois vim a criar um estilo que chamaram de “exaltação”.  Por que, não sei. É a fase em que falo do Brasil grandioso, nas suas várias facetas, de beleza, de riquezas. Não tem nada de exaltação. Começa naturalmente com Aquarela do Brasil.
NA BAIXA DO SAPATEIRO, gravado  antes, já prenunciava o estilo grandiloquente das novas composições de Ary, como  Brasil Moreno  e Terra Seca, samba que considerava sua obra-prima. 
Mas, foi Aquarela do Brasil  que lhe deu fama e... dólares. Uma história que começa em Belém do Pará quando um grupo de americanos quis ouvir música brasileira e fez o pedido para o péssimo quarteto que tocava no restaurante do hotel. Saiu uma Aquarela meio deformada, mas o suficiente para que o americano mais importante do grupo saísse assobiando trechos da melodia e não a esquecesse até chegar ao Rio de Janeiro.






O americano era Walt Disney, que vinha fazer um desenho num país tropical. E, para fundo musical das aventuras de Zé Carioca em Alô, Amigos, escolheu a composição que ouvira primeiro em Belém e depois no Rio.  Entusiasmado com  as músicas de Ary, mais tarde, incluiu NO TABULEIRO DA BAIANA  e  OS QUINDINS DE IAIÁ no desenho VOCÊ JÁ FOI À BAHIA?.   
Foi o suficiente para que Ary ganhasse notoriedade internacional e fosse chamado a Hollywood para fazer a música de outros filmes. Em princípios de 1944 ia pela primeira vez aos Estados Unidos, compondo RIO DE JANEIRO para o filme BRASIL,  música que chegou a ser indicada para o Oscar. No fim do mesmo ano voltou à América do Norte, onde permaneceu oito meses ganhando mil dólares por semana. Desta vez compôs a canção-tema do filme TRÊS  GAROTAS DE AZUL.
E jamais esqueceu um telefone de Los Angeles CR-52354. Através dele ouviu a voz inconfundível da velha amiga Carmen Miranda, que se instalara nos Estados Unidos havia cinco anos. Ary voltaria ainda uma vez, em 1948, para musicar O TRONO DAS AMAZONAS, filme que não chegou a ser completado.

 


 
Fonte: NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA   
Abril Cultural- 2ª edição - 1977
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