segunda-feira, 7 de julho de 2014

OFICINA DA VOZ II - O INSTRUMENTO VOCAL



APARELHOS: RESPIRATÓRIO- FONADOR - RESSONADOR

O instrumento vocal se divide em 3 partes:  aparelho respiratório, aparelho fonador, aparelho ressonador.

APARELHO RESPIRATÓRIO

É impossível ser um bom cantor se não se possui um perfeito controle da respiração.
A respiração natural é a que se realiza durante o sono. Para compreendê-la, basta colocar uma mão sobre o estômago e a outra sobre as costelas, estando deitado. Nota-se que toda a caixa torácica se dilata.
Todo ar inspirado deve transformar-se em som para que seja cheio e puro. Ao emitir demasiado ar para um som, a voz se torna velada e parece estar se ouvindo um escape de gás.
A respiração se realiza em três tempos:
1º tempo – inspiração pelo nariz ampla e profunda, silenciosa e rápida.
2º tempo – um instante de suspenso para o bloqueio do ar. As costelas estão separadas.
3º tempo – Expiração – a caixa torácica e o abdômen permanecem dilatados o maior tempo possível.
Para facilitar o controle do dar, os músculos devem pressionar suavemente para baixo, tendo a mesma sensação da expiração quando bocejamos.
Uma boa respiração proporcionará nitidez no ataque e no final dos sons, assim como em sua continuidade.
No canto, a respiração deve ser controlada – a inspiração é mais curta e a expiração é mais longa.




O diafragma  é um músculo estriado em forma de cúpula e principal responsável pela respiração humana (também é auxiliado pelos músculos intercostais e outros músculos acessórios); serve de fronteira entre a cavidade torácica e a abdominal.
Na inspiração, ele abaixa-se pelo aumento da caixa torácica. Na expiração, ele fica relaxado e a pressão dos músculos abdominais faz com que as vísceras do abdome o leve a sua posição. 
  

APARELHO FONADOR

O aparelho fonador é formado pela laringe  e as cordas vocais, epiglotis, ossos iodes, glotis, cordas vocais superiores, cordas vocais inferiores, cartilagem da tiroide, cartilagem cricóides, traquéia.
A laringe também é chamada de “voice-box”, que quer dizer caixa de voz, uma vez que é a fonte da voz.
A cordas vocais, ou melhor as pregas vocais, são ligamentos fixados à laringe ao longo de sua borda interna.




A boca tem um papel importante na articulação das palavras e também na transformação do som.
O queixo deve estar livre de toda concentração, podendo subir e descer sem alternar o som.
A língua deve voltar ao seu lugar rapidamente, que é o fundo da mandíbula inferior. A rigidez da língua dificulta as subidas estrangulando o som. Isto acontece, principalmente, com os sons agudos. Fazendo exercícios com a língua fora da boca, se libera a passagem do ar e os sons podem chegar até os ressonadores.
O véu do paladar deve elevar-se para que o som se torne redondo, fechando as fossas nasais e liberando o fundo da garganta.
Os lábios devem obedecer à pronúncia. O som não dependerá de caretas ou contrações dos músculos faciais.








APARELHO RESSONADOR



O som produzido pela vibração das cordas vocais é muito fraco, e seria inaudível  se não fosse amplificado pelos ressonadores próximos à laringe. Assim, como o som de uma corda de violão deve ressonar na caixa de madeira, o som das cordas vocais deve passar pelos ressonadores para adquirir brilho, amplitude e redondeza.
Os ressonantes mais importantes são os ossos do peito (para os sons graves) e da cabeça (para os sons médios e agudos).
A beleza, o timbre e a amplitude da voz, dependem mais de qualidade dos ressonadores que das cordas vocais.
As cavidades de ressonância são faringe, cavidade nasal e fossas nasais, cujo principal papel na fonação é reforçar ou não os harmônicos dando o aspecto vocal final (qualidade) ao indivíduo. É Possível acrescentar um quarto ressonador formado pela projeção e arredondamento dos lábios.
A região das cavidades ósseas, entre a mandíbula superior e a testa, é chamada de “máscara”.  É a região mais importante da ressonância vocal.
“cantar na máscara” ou “cantar para frente”, significa cantar usando os ressonadores faciais. Esses ressonadores, porém, são os mais difíceis de alcançar.
A passagem do grave para o agudo depende da adaptação da boca.







Imagens: internet- Google





















OFICINA DA VOZ III - DESENVOLVIMENTO E FORMAÇÃO DA VOZ


DESENVOLVIMENTO DA FORMAÇÃO DA VOZ

A técnica vocal é praticada há séculos. Em todas as grandes épocas da história do mundo existiu o teatro e certamente, com ele um cultivo do idioma referente. Infelizmente faltam-nos documentos históricos sobre a maneira do ensino. Dos gregos sabemos que a declamação predominava sobre o canto. Na era cristã, foi fundada pelo Papa Silvestre, em Roma, no Século IV, a primeira escola de canto para a formação do canto religioso. Até o Século XVI, o maior desenvolvimento da música era ligado à Igreja. O canto litúrgico predominava. Nos séculos XII ao XIV, trovadores, “minnesaenger” e mestres cantores executavam uma música profana, cujas melodias se espalharam, até que, muito depois, também se incorporaram à Igreja que relutara em aceitá-las.
A construção dos instrumentos que acompanhavam os cantores desenvolveu-se amplamente. No fim do século XVI estava assim, tudo preparado para uma nova forma musical: a ópera, que reunia cantores com bailarinos e declamadores, acompanhados por vários instrumentos, apresentando um estilo musical, que foi recebido com grande entusiasmo pelo público. Por consequência, houve um desenvolvimento rápido da ópera, nos séculos seguintes, o que trouxe consigo a necessidade de cantores com grandes possibilidades vocais.
Sabemos hoje, que na fala geralmente são usados 5 tons; um bom declamador ou ator poderá usar até mais de uma oitava ( 8 tons), enquanto um grande cantor consegue emitir de 2 até 3 oitavas, isto é 16 até 24 tons ou 36 semitons (exceções já conseguiram 5 oitavas).  Isto significa que as exigências da voz desde o nascimento da ópera, são bem maiores, e daí surgiram grandes escolas de canto, das quais a maior em Roma. Surgiram também técnicas diferentes. Nem todos os cantores e atores tinham o material  de voz desejado e trabalharam para consegui-lo. Um caso conhecido nos arquivos médicos: ENRICO CARUSO (1873-1921), de natureza, barítono, executando exercícios, forçando a voz, até usando o artifício de apoiar a testa na parede, durante os treinos, conseguiu ser tenor. Este procedimento não natural, provocou, com o tempo, nódulos nas pregas vocais.  O estado patológico da voz de Caruso foi provado; por intermédio de pneunogramas verificou-se a sua respiração defeituosa.
Não quer isto dizer  que as técnicas foram efetuadas sempre nesta maneira, porque tivemos grandes cantores e cantoras, possuidores de vozes sãs, que cantaram até 70 anos. Mas Caruso não é um caso tão excepcional como pode parecer. Nos arquivos médicos, pode-se achar, até hoje, nomes de cantores conhecidos que se apresentaram nas clínicas com deficiências incríveis.  Por exemplo: o caso de uma cantora que, exerceu sua profissão durante 10 anos nos maiores palcos de Paris, e que ia perdendo a voz devido a “má respiração”. Aprendendo a respirar normalmente, todas as dificuldades desapareceram.  Surge a pergunta: como pode acontecer isto, com toda a grande tradição que possuímos na formação de vozes? Já foi dito que com o desenvolvimento do canto formaram-se técnicas diferentes. Lendo-se a literatura do passado sobre o assunto, pode-se notar que, embora todos os cantores falem nos termos básicos, tais como, respiração, apoio, ressonância, articulação,  já se distinguem na aplicação da respiração. Podem, por exemplo, cantar com a caixa torácica levantada, ou com a caixa torácica abaixada (contrário!); na articulação cantar todas as 29 vogais com a boca numa só posição; ou numa posição diferente para cada vogal; no apoio: os músculos abdominais estendidos, ou contraídos.
Nos estudos com vários professores pode acontecer que, às vezes, nos ensinem a cantar com a boca aberta, queixo caído até o máximo, dentes invisíveis.  Outras vezes, com a boca aberta, larga, sorrindo mostrando os dentes (trata-se aqui da execução de exercícios com um idioma só!). Aconteceu – na metade do século XX, que uma aluna perguntou a uma professora como se forma um som agudo ou grave na laringe, e recebeu a resposta que com tal explicação não aprenderia a cantar (em parte é verdade). Assim, muitos cantores e atores acabaram estudando sozinhos por causa da variedade de técnicas diferentes, com as quais ficaram, naturalmente, perturbados.
Qual a origem desta situação na Técnica Vocal?
Aprendemos a falar e a cantar por imitação e ouvido. Num sistema de imitação baseiam-se também quase todas as velhas escolas, porque antigamente não se conhecia o funcionamento do aparelho fonador. Formaram-se expressões até hoje usadas: voz de cabeça, voz de peito, cantar na máscara, ressonância, apoio (nem todas elas se justificam cientificamente). Antigamente, o aluno aceitava estes termos imitando o professor. Daí, desenvolveram-se técnicas diferentes, porque os professores ensinaram canto aos alunos, como eles o aprenderam, não levando em conta que cada um de nós tem uma outra reação à técnica, porque somos todos diferentes fisiologicamente.
Com o desenvolvimento da ciência, do pensamento, a educação mudou, ensinando o aluno não somente a decorar e a imitar. Além disso, após as duas guerras mundiais, formou-se uma juventude mais livre, mais rebelde, que queria melhorar e não repetir os mesmos erros. Uma juventude de espírito mais crítico que não aceitava apenas a imitação, mais exigia explicações lógicas.  Desde então, o conhecimento da ciência da voz desenvolveu e estendeu-se com grande rapidez: possuímos hoje livros que explicam o funcionamento do aparelho fonador. Já temos uma base para a Técnica Vocal, fornecida pela ciência da voz.
 A medicina pesquisou o funcionamento do aparelho fonador, sua anatomia, suas deficiências, suas doenças. Poucas vezes um médico, pesquisador de voz, aprendeu canto, como também, muito raramente, um cantor, ator ou professor de canto estudou medicina, nem  a  menor parte necessário ao canto. Mas, quando tais estudos se conjugaram, surgiram grandes resultados. Entre outros: Manoel Garcia, Raoul, Husso.
Apesar dos resultados da ciência sobre o funcionamento do aparelho fonador, muitos artistas e professores de canto e fala seguem o velho método de imitação, simplesmente não sabendo o que fazem. Acham que a arte é algo fora do mundo, que não deve ser tocada (porque “voz, a gente tem ou não tem...”), é melhor que fique envolvida num mistério. Mistério este que tem por consequência os casos já citados.
Mas, logicamente é difícil  e até agora quase impossível formar-se ator, cantor ou professor de Técnica Vocal e igualmente médico, nem seria necessário, se ambas as profissões se aliassem em mútuo interesse, como acontece em todos os grandes centros do mundo, onde trabalham em clínicas para perturbações de voz, lado a lado, médicos, professores de fala e canto, foniatras, psiquiatras, etc... Ali são testadas todas as pessoas que precisam muito da voz, pessoas com deficiências congênitas ou adquiridas, ali são dados conselhos e efetuados tratamentos.
Surge mais uma vez a pergunta:  por que continua, no ensino, o desconhecimento, em grande parte, da fisiologia da voz? Não devemos esquecer que a ciência da voz é, relativamente jovem em confronto às outras ciências. Embora médicos, pesquisadores do século XVIII já se interessassem pelo funcionamento do aparelho fonador e embora já fosse estudado pela anatomia, até 1854 não sabíamos qual o produtor exato da voz.
Naquela época foram contados pela ciência 60 pesquisadores, divididos em 20 grupos principais que, alternadamente, determinaram como produtores da voz: a traqueia, os músculos, a epiglote (parte da laringe), os ventrículos de Morgagni (espaço entre as cordas falsas e verdadeiras) ou respectivamente as cordas vocais superiores (falsas). Fatal era que todos achassem os seus resultados certos e em nenhum documento consta que se trata de uma hipótese. Todas lutaram com a matéria, até que, finalmente, o professor de canto Manoel Garcia teve a ideia de introduzir, profundamente, em sua garganta um espelho de dentista, colocando-se contra o sol e observando com um segundo espelho o interior da laringe. Este simples fato terminou todas as lutas da ciência e com isto foi provado, pela primeira vez na história da ciência da voz, que cantamos e falamos com as cordas vocais inferiores (verdadeiras).
Isto aconteceu há 110 anos – um espaço de tempo relativamente pequeno quando comparado com as outras ciências. O canto, a fala, a música, o teatro já existem há séculos e atuaram sem esta ciência, com grandes resultados e grandes artistas. Isto talvez explique, um pouco, a atitude indiferente por parte da arte em relação à ciência, até hoje.  Se deu resultado em tantos séculos, então dará hoje também. Mas não é tanto assim, já no último século temos o grande desenvolvimento da técnica e com ela o telefone, o rádio, os transmissores, os discos e mais tarde a televisão. E em tudo está envolvida a voz e, como já foi dito e fica bem claro agora, jamais precisamos dela, como nos tempos modernos.
CANTAR É UM ATO SENSÍVEL E NATURAL EM SI, DE NADA ADIANTA COMPLICÁ-LO SE BEM QUE É NECESSÁRIO ESTABELECER SUAS BASES QUE SÃO A RESPIRAÇÃO, A RESSONÂNCIA, A EMISSÃO E ARTICULAÇÃO.

Fonte: Wilson Sá Brito
Canto Livre – abril a junho de 1999


OFICINA DA VOZ IV - CLASSIFICAÇÃO VOCAL


CLASSIFICAÇÃO VOCAL

As divisões mais gerais na classificação das vozes são:
AGUDA –     SOPRANO ( mulher) –          TENOR (homem)
MÉDIA –      MEIO SOPRANO (mulher) – BARÍTONO (homem)
GRAVE -       CONTRALTO ( mulher) –      BAIXO (homem)

Portanto, vozes masculinas são: Tenor, Barítono e Baixo
O baixo é a voz mais grave e não atinge os agudos do barítono e do tenor.
O Barítono é a voz média – não atinge totalmente os agudos do tenor nem os graves dos baixos.
O tenor é a voz mais aguda que não tem os graves do baixo e do barítono.

As vozes femininas são- Soprano, Meio-soprano e Contralto.
A contralto é a voz mais grave feminina – não atinge os agudos da soprano e meio soprano.
A meio-soprano  é a voz média – não atinge tantos graves da contralto. Nem tantos agudos da soprano.
A soprano é a voz mais aguda  - atinge notas mais agudas.
Vale dizer que existem mulheres com vozes muito graves, que nos corais são colocadas para cantar junto com os tenores e são chamadas de TENORINAS.
Também temos homens com vozes muito agudas, que nos corais são colocados para cantar junto com as contraltos ou até mesmo com as sopranos; esses homens são classificados como CONTRATENORES.

Na música popular, em geral, as vozes atingem no máxima, uma oitave e meia.

Classificar uma voz é observar as qualidades da voz humana. Estas qualidades são as seguintes:  TIMBRE,  ALTURA, INTENSIDADE

TIMBRE – é a cor, a personalidade de cada voz, que pode ser clara, redonda, cálida, áspera, profunda, cristalina.  É  o som próprio e característico de cada pessoa.  É através do timbre que reconhecemos a voz de uma pessoa. O timbre é também uma qualidade dos instrumentos musicais; é através do timbre que diferenciamos  um piano de um violino, etc.
ALTURA – é a qualidade que determina se uma voz é grave ou aguda.

INTENSIDADE – é o volume da voz – é a qualidade da voz em emitir um som mais forte ou fraco.

OFICINA DA VOZ - V - ARTICULAÇÃO - DICÇÃO - INTERPRETAÇÃO



ARTICULAÇÃO- DICÇÃO – INTERPRETAÇÃO

O ouvinte quer entender o que diz o cantor, não bastando uma linda voz.
As consoantes devem ser pronunciadas com energia, por isto exercícios devem ser feitos sobre todas as consoantes e todas as vogais.
“A”, “É”,”U”  - Não podem ser cantadas como na fala. Elas necessitam serem arredondadas; emitidas no fundo da garganta e o maxilar inferior deve descer para ovalar a boca.
“E”, “I” – a boca fica sorridente e a ponta da língua se prende aos dentes inferiores. Conforme o som se torna mais agudo, elas necessitam de um ovalamento da boca.
“ O “ e “U” – os maxilares se afastam ao mesmo tempo que os lábios se projetam para frente; conforme os sons se tornam mais agudos, os maxilares se afastam e a boca se ovala. Nos agudos, o “U” deve ser cantado como “O”.
Nas partes muito agudas, é quase impossível cantar outra vogal que não seja o “A”, por isso, deve-se pensar na vogal que se vai cantar e emiti-la como para um “A”. O som sofrerá um mínimo de deformação dessa maneira.


A VOZ FALADA E O TRABALHO VOCAL

A diferença entre o canto e a palavras  é que a fala emprega menos notas, mas que são emitidas pelos mesmos órgãos.
O cantor tem maior facilidade em expressar o assombro, a tristeza, a alegria e a sua fala é menos monótona.
Sempre há no canto, algo que pode aprender, que aperfeiçoar. Quem quiser cantar bem por muito tempo, deve exercitar-se bem e durante muito tempo. Se o trabalho vocal acarreta um cansaço ou ronqueira anormais, isto significa que foi realizado de maneira errada.
O estudo diário deve ser sempre a “meia-voz” e suave, durante 15 minutos, sem se preocupar com a força do som. Pela manhã o aproveitamento é melhor.
Jamais force a voz ao exercitar. Busque a qualidade do som.
A saúde não pode ser esquecida; a voz reflete quase sempre as mínimas alterações do corpo: mal-estar, fadiga, etc... Reprima a tosse sempre que possível porque ela fatiga a voz.  Evite gritos e não fale em lugares barulhentos.
Cultive a calma e a serenidade



OFICINA DA VOZ - VI - A VOZ QUE CANTA



A VOZ QUE CANTA

A  voz é o meio mais natural, artístico e espontâneo de se fazer música com o corpo humano. Por isso, o canto é a expressão mais universal dentre os tipos de música mundial. Cantar envolve fatores orgânicos, psicológicos e técnicos. É o resultado de uma interação harmoniosa e equilibrada entre fatores anatômicos, como o fluxo de ar que é expirado pelos pulmões e a posição das pregas vocais: com o uso das estruturas do aparelho fonador  e aparelho ressonador adequadas, conseguidas através da técnica vocal; e por fim a emoção de cantar que é fator extremamente lúdico e prazeroso.
Imagina-se a prática do canto tão antiga quanto o desenvolvimento da linguagem articulada. O homem primitivo já usava o canto para se alegrar, exprimir seu pesar, avisar os outros do perigo e para acalmar os poderes superiores. Cantar faz bem para o corpo e para a alma, e com razão o provérbio diz: “Quem canta seus males espanta”. A voz cantada usa as mesmas estruturas que a foz falada, embora com diferentes ajustes devido à necessidade do canto. De uma maneira mais simplificada, a respiração no canto passa a ser mais profunda e os ciclos respiratórios (inspiração e expiração) são programados de acordo com a música: as pregas vocais produzem ciclos vibratórios mais controlados, com uma série de harmônicos mais rica e uma extensão vocal mais ampla; a intensidade vocal sofre grandes variações de forma rápida; a projeção vocal é uma necessidade constante; a qualidade vocal do cantor é mais estável devido ao treino; a mensagem a ser transmitida está além das palavras privilegiando-se os aspectos musicais; a velocidade a o ritmo do canto dependem do tipo, melodia e andamento da música; e a postura corporal é mais estável procurando-se estar com o corpo ereto.
Já que o cantor tem como instrumento de trabalho sua própria voz, ele está mais sujeito a apresentar alterações na sua produção vocal. Inúmeros hábitos e acontecimentos podem ser nocivos para a voz do cantor, entre eles: pigarrear; gritar; falar um tempo exagerado; falar cochichando; realizar competição sonora; falar fora da frequência habitual; ingerir cafeína e álcool em excesso; fumar; estresse; permanência em lugar seco; descanso inadequado e mudanças constantes de professor de canto.
A voz falada é o resultado da vida emocional, enquanto que a voz cantada é, em grande parte, o resultado de treino. Por isso, algumas regras facilitam ao cantor  ter uma voz boa e estável. São elas:
- Não cantar quando não estiver em boas condições de saúde, porque cantar é um ato de esforço e gasto energético.
- Usar sempre roupas confortáveis que não prendam principalmente a garganta, peito e abdômen.
- Beber muita água, para que as pregas vocais estejam em ótima condição de vibração.
- Aquecer e desaquecer a voz antes e depois de cantar.
- Ensaiar apenas o tempo suficiente para ficar seguro. Nunca ensaie por mais de uma hora sem descanso.
- Monitorar sua voz, aprendendo a reconhecer suas sensações de esforço e tensão vocal.
- Evitar festas barulhentas e lugares enfumaçados antes e depois das apresentações.
- Manter uma dieta balanceada, pois o canto é uma função especial e requer grande aporte energético.
- Nunca se automedicar mesmo com remédios conhecidos ou chás, eles podem prejudicar suas pregas vocais. Procure sempre ajuda especializada.

Conhecer a própria voz e estar ciente dos principais cuidados a serem tomados, faz com que se desenvolvam melhores condições de ouvir, reconhecer e apreciar um bom canto; além de promover a descoberta de uma das funções mais fantásticas do corpo humano.

Fonte: Andrea Lux Wiltemburg - CRF-5818
Canto Livre – jul/ago/set 1998




quinta-feira, 5 de junho de 2014

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

DORIVAL CAYMMI - CENTENÁRIO DE NASCIMENTO - 2014 - PARTE I



Os pés nus marcam a areia úmida. Largo chapéu de palha e leves roupas de algodão, os homens sentem a brisa que sopra da terra para o mar. Falam pouco, apenas o suficiente para a realização das tarefas. O sol ainda não surgiu e o grupo se movimenta orientado pela fraca luz de um lampião a querosene. E o marulho do mar.
A rede estendida para secar no dia anterior, é enrolada. O mestre examina a vela para ver se há algum furo. Está em ordem; foi tratada com sangue de peixe e exposta ao sereno, garantindo a sua durabilidade. Os paus também são verificados: meios, bordos e mimburas em perfeito estado.  O proeiro traz a quimanga, cheia de farinha, rapadura, banana e peixe assado, e o barril com água doce. O bico de proa carrega o samburá onde serão guardados os peixes. Os três homens estão prontos para partir.
Ainda é noite quando eles começam a empurrar a jangada sobre os roletes feitos de tronco de coqueiro. Uma frágil embarcação (5 metros de comprimento, 1,5  metros de largura) que balança ao impacto das primeiras ondas.
MINHA JANGADA VAI SAIR PRO MAR
Quando a água chega à cintura, Bento e Zeca saltam sobre os troncos. E Chico diz pra Rosinha:
“minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar Meu bem-querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E  a Deus do céu vamos agradecer“

Em terra, as mulheres ficam fazendo renda e esperando , esperando e rezando para Iemanjá. Que não chova, que não venha o pé-de-vento, que voltem com os samburás cheios de peixe. Iemanjá, rainha do mar, há de velar pelos homens, pois pescador, quando sai, nunca sabe se volta nem sabe se fica.

“Adeus, adeus
Pescador não esqueça de mim
Vou rezar pra ‘tê’ bom tempo Meu nego
Pra não ‘tê’ tempo ruim
Vou fazer sua caminha, macia
Perfumada de alecrim.”

Pedro saiu às 6 horas da tarde, passou toda a noite, não veio na hora do sol raiar....

“Pedro, Pedro, Pedro, Pedro!
Chegou, chegou, chegou, chegou!
Ninô, Ninô, Ninô, Ninô!
Zeca, Zeca,  Zeca,  Zeca!
Cadê vocês, homens de Deus?
Eu bem que disse a José:
Não vá José! Não vá José!
Meu Deus”

Com um tempo desses não se sai
Quem vai pro mar, Quem vai pro mar
Não vem!

É tão triste ver partir alguém
Que a gente quer com tanto amor
E suportar a agonia de esperar voltar
Viver olhando o céu e o mar
A incerteza a torturar
A gente fica só, tão só. É triste esperar.

Uma ‘incelença’ entrou no Paraíso!
Uma ‘incelença’ entrou no Paraíso!
Adeus, irmão, adeus
Até o dia do Juízo
Adeus, irmão, adeus
Até o dia do Juízo

Perdida no mar, a jangada parece um barco de náufragos. Mas seus tripulantes sabem muito bem o que estão fazendo: lançaram o tauaçu  e silenciosamente soltaram a linhada. O local é bom, logo o samburá começa a se encher. O mar está manso, a pesca é farta e nos rostos queimados do sol há um sorriso. Eles voltarão com muito peixe, vai ‘tê’ presente prá Chiquinha e ‘tê’ presente pra Iaiá.
No brilho da tarde, ao longe, uma vela aparece. Sob o olhar aflito e resignado das mulheres, os pescadores se aproximam. Com água pela cintura, empurram a jangada para a areia, onde estão os roletes, e todos, mulheres, velhos e crianças, ajudam a puxar a embarcação.
Até mesmo um menino, que não é filho de pescador, não mora perto, mas vive fascinado pelo mar, pelas histórias de pescadores, por aquela aventura diária da jangada sobre as ondas. Ele também quer ajudar, participar do esforço, sentir a alegria da volta. É uma criança ainda, mas pressente a beleza e o drama da vida daquela gente.
O menino DORIVAL CAYMMI ama os pescadores, a jangada, a areia, o vento, o sol, o mar.  E a BAHIA.

SUITE DOS PESCADORES - Dorival Caymmi  e família - Tom Jobim




Na Bahia, Caymmi ia à praia de Itapoã, na época um vilarejo de pescadores, onde conviveu com a luta e a tragédia da gente do mar. Ouviu histórias e registrou-as em canções como esta Suíte dos Pescadores, também conhecida como História de pescadores.
Direitos autorais de Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores Musicais
Fonte: Nova História da Música Popular Brasileira – 1976 – Abril Cultural
Vídeo - Suite dos Pescadores - youtube
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------
MIMBURAS ou MUMBURAS –(NORDESTE) - nome dado aos dois paus extremos da jangada.
BORDOS , MEIOS  – (NORDESTE)- Cada um dos paus  dentre os que formam as jangadas
PROEIRO –(MARINHA) – marinheiro que vigia a proa.
QUIMANGA (NORDESTE) -  espécie de cabaça, preparada com quengos de coco na qual os jangadeiros levam a comida.
TAUAÇU- (NORDESTE) – pedra furada que serve de âncora às jangadas

Fonte: Dicionário Contemporâneo Da Língua Portuguesa – Caldas Aulete – Editora Delta S.A. – 1958