terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ESCOLAS DE SAMBA - O PRIMEIRO CONCURSO


  O PRIMEIRO CONCURSO

Já no início da década de 30, as escolas de samba se apresentavam na cidade. Os grupos não ultrapassavam trinta pessoas, segundo Tia  Sinhá, do Estácio. Nesse período, os ranchos eram o grande acontecimento popular do Rio e se apresentavam na Avenida Rio Branco.
- Não havia ordem – diz Tia Sinhá. – Quem chegasse primeiro na Praça Onze entrava. Por isso, havia até muita confusão e briga. Aparecia, então, muita navalha e sabre, na mão dos homens. Nós, as mulheres, e as crianças íamos nos abrigar na Igreja de Santana. Não sei quem arranjava, mas havia sempre uma portinha aberta, junto à sacristia.
Coube ainda ao macumbeiro Zé Espinguela organizar o primeiro concurso entre os blocos de samba. – Ele arranjou com um turco, que tinha uma  lojinha na Praça Onze, pra colocar lá na vitrine três tacinhas – relata Cartola. – E convidou os principais redutos de samba a disputar as taças. No dia da apresentação, construiu um pequeno palanque e, com amigos, assistiu às exibições. No final, com todos os representantes em torno, anunciou o resultado:
 1º LUGAR – MANGUEIRA
                                 2º LUGAR – ESTÁCIO
3º LUGAR - FAVELA
Quando o pessoal do Estácio foi receber a taça que lhe cabia, aproveitou e a quebrou na cabeça do Zé Espinguela. É que ele tinha uma amante em Mangueira e o pessoal do Estácio achou que havia ocorrido proteção.
Segundo a pesquisadora Marília Trindade Barbosa, o verdadeiro nome de Espinguela era José Gomes da Costa, e o primeiro enfrentamento de escolas de samba teria ocorrido em 1929. O próprio chefe de terreiro e candomblé, em 1º de Março de 1935, contou ao jornal “A Nação” como tudo aconteceu: “ Eu fui o primeiro organizador de concurso entre as escolas. Foi em 1929. Realizei no Engenho de Dentro. Sagrou-se campeã a Portela, sabiamente dirigida por Paulo. Mangueira também apresentou-se pujante, tendo os seus sambistas Cartola e Arthurzinho apresentado dois sambas monumentais: Beijos e Eu Quero Nota.
O samba vencedor, Não Adianta Chorar, de Heitor dos Prazeres, fez jus a uma taça, que seria entregue ao conjunto Oswaldo Cruz
(como então se chamava a Portela) no domingo de carnaval, nas escadarias da Escola Benjamin Constant, na Praça Onze. Mas os sambistas do Estácio e da Mangueira espalharam um boato: iam transformar a festa em briga feia. Zé Espinguela – embora insistindo no título da campeã – ofereceu uma taça a cada concorrente, com fitinhas coloridas a distingui-las: azul e branca à futura Portela, vermelha e branca ao Estácio e verde e Rosa à Mangueira.
Essas manifestações de belicosidade nos primeiros confrontos explicam a má fama de que os redutos de samba gozavam, naquela época. Quando o bloco Vai Como Pode, do bairro de Oswaldo Cruz, pretendeu legalizar-se na Delegacia de Costumes e Diversões, encontrou a oposição do Delegado Dulcídio Gonçalves, que não gostou de sua denominação. Após inúmeras indicações, adotou-se o nome de Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, que o policial registrou.( A agremiação tinha sua sede na Estrada da Portela).
Melhor sorte que a de Zé Espinguela tiveram Orestes Barbosa, R. Magalhães Júnior, Fernando Costa, J. Reis, José Lira, Álvaro e Eugênia Moreira, reunidos pelo “Mundo Sportivo” para julgar um campeonato de samba – que esse jornal de grande popularidade chamou de  acontecimento inédito, num artigo que publicou na edição de 4 de fevereiro de 1932.
O desfile se realizaria no dia 9 daquele mês e ano (domingo de carnaval) , em frente à Escola Benjamin Constant. Ainda não havia samba-enredo, e Décio Antônio Carlos, o conhecido Mano Décio da Viola, explica como se definia o que cantar na hora da apresentação: - vinha-se cantando pelas ruas vários sambas, um, dois, três, os que mais agradavam. Às vezes já se levava tudo combinado, ou, então, o presidente parava a escola antes do local da apresentação e dizia: “atenção, atenção! O nosso samba oficial é o de fulano”. Estava escolhida a música de apresentação.

“sorrindo,sorrindo sempre,/ porque eternamente hei de sorrir/ Para não chorar./ mas, ao me lembrar/ de quem sofreu,/ padeceu por mim,/para não me ver chorar,/para não me ver chorar” – com esses versos, do samba SORRINDO, de Zé Com Fome ( mais tarde Zé da Zilda), a ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA iria se fazer  campeã desse desfile de escolas de samba, que o “Mundo Sportivo” chamou de “campeonato do samba”.
Em segundo lugar colocaram-se  a Linha do Estácio e a Vai como Pode; em terceiro, Para o Ano sai Melhor; e, em quarto, a Unidos da Tijuca.
Os resultados devem ter sido positivos porque no ano seguinte o jornal O GLOBO assumia a promoção do encontro dos grupos de samba, igualmente na Praça Onze e no domingo de carnaval. Nessa oportunidade, o concurso ganhava regulamento, tornando obrigatória a presença de ala de baianas e proibindo instrumentos de sopro. Criaram-se, também, os quesitos para orientação dos jurados, assegurando-se 5 pontos para poesia do samba; 3 para enredo; 2 para originalidade; e 3 para conjunto.
A Estação Primeira de Mangueira, com o tema Uma Segunda-Feira no Bonfim, somaria o maior número de pontos e se tornaria, portanto, bicampeã. A Azul e Branco ( Salgueiro), ficaria com a segunda colocação; a Unidos do Salgueiro conquistaria o terceiro lugar; e, por fim, empatadas no quarto lugar, ficariam Vai Como Pode e De Mim Ninguém se Lembra ( Estácio).

FONTE: NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
ABRIL CULTURAL – 1979







ESCOLAS DE SAMBA - PREFEITO PEDRO ERNESTO


PREFEITO PEDRO ERNESTO E SUA IMPORTÂNCIA NO CARNAVAL CARIOCA


Menos de quatro meses após a fundação de sua entidade representativa – a União Geral das Escolas de Samba -, os grupos cariocas de sambistas obtinham nova grande conquista; estava oficializada sua participação no carnaval. Por um decreto de 2 de fevereiro de 1935, do então Prefeito Pedro Ernesto (que se interessava muito pelas manifestações populares),  as escolas igualaram-se, oficialmente, aos ranchos e às grandes sociedades carnavalescas.
Em 1958, em entrevista ao jornal “Última Hora”, Eloy Antero Dias, o Mano Eloy – patrono da Império Serrano e o primeiro “Cidadão-Samba” -, chamava a atenção para a importância de Pedro Ernesto na existência das escolas de samba. “Sua intervenção, atendendo em apenas três dias o pedido do presidente da União das Escolas de Samba, demonstrou que ele já tinha a ideia amadurecida. Inclusive já prestava ajuda material a algumas escolas e sempre intervinha, favoravelmente, junto a outras autoridades, para desembaraçar licença de funcionamento de samba”.
Juvenal Lopes – presidente de honra da Estação Primeira de Mangueira - , com humor malandro, também atestou a importância do ato de   Pedro Ernesto:  - depois do decreto, a polícia chegava aos desfiles de samba, mas para proteger sua organização. Ficou bem melhor do que correr dela.
Em 1934, portanto, realizou-se o último desfile de escolas de samba sem a participação do Poder Público, sendo mais uma vez campeã a ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA. João Cocada, que assistiu, menino ainda, seu pai (o velho Euclides) fundar a escola e também indicar Saturnino Gonçalves para presidente, fala sobre aquele período:
- Pobre tinha pouco onde ir, por aquela época. Então, o samba, geralmente uma quadrinha de 10 metros por 10, era ponto de união da pobreza, para alegrar-se um pouco. Fora disso, livre mesmo somente macumba, ladainha e procissão. Portanto, não havia, como agora, temporada de samba. Era samba o ano todo. Para se ir a um cinema na cidade, era preciso botar gravata. Quem é que tinha gravata no morro? Uns três ou quatro. Daí a gente ensaiava, praticamente, o ano todo. Chegava no desfile, estávamos afinadíssimos, notadamente na harmonia do canto do samba.
Eusébia de Oliveira, a Dona Zica da Mangueira, mulher de Cartola, explica como saía a Estação Primeira por esse período:
- os valentões, os grandes malandros, respeitados, como o Galo, o Cecilhão, o Júlio, o Nascimento ou o Marcelino(o primeiro mestre-sala da Mangueira) saíam vestidos de baianas. Alguns, como o Cecilhão, com um enorme coque no alto da cabeça. Usavam  muitos cordões no pescoço. Quanto mais, mais se julgavam importantes. As pastoras se vestiam de homens, virando o paletó ao contrário, e era a única vez do ano que botávamos calça comprida. Algumas outras pegavam esse macarrão “padre-nosso” e pintavam para fazer colar, e vestiam baianas de papel crepom. As que tinham mais um dinheirinho faziam baianas de chitão. Era tudo simples. De resto, as fantasias eram idênticas às do carnaval de rua, com burrinhas, chupetas, barriga grande, cara pintada, essas coisas.

ESCOLAS DE SAMBA - A ARTE DE COMER GATO





Mestre Fuleiro ( Antônio dos Santos- 1915-   ), diretor geral da Império Serrano, foi criado entre o Estácio e a Tijuca, onde sua mãe, Dona Teresa ( 1877-   ) era conhecida festeira e passou dos cem anos, respeitada como jongueira. Em menino, Fuleiro já tocava alguns instrumentos. Em relação ao ritmo das escolas, na década de 20, ele esclarece: - como sempre fui muito forte e alto, me davam o tamborão para tocar. Era um retângulo de madeira furada, com quase meio metro por vinte, coberto de couro cru. Batia-se nele com a palma da mão e saía uma espécie de marcação do ritmo. O resto da bateria era chocalho, ganzá, cabaça, cavaquinho, violão.  Os grupos eram muito pequenos, e uma bateria com oito ou dez elementos botava samba na rua. Depois o tamborão foi diminuído e surgiu o tamborim, que passou a ser repicado com varas, pois tamborão deixava as mãos do tocadores inchadas e em brasa.
Para Mestre Fuleiro,  foi Bide ( Alcebíades Barcelos), autor do samba Agora é cinzas, quem deu melhor organização às baterias:
- um dia fui no Estácio e o vi tocando surdo de marcação. Era feito dessas latas de manteiga, redondas, com aros de proteção na boca, bem encouradas. Ele fazia marcação com baqueta, dando a batida e a resposta. Aquilo era uma sensação da Deixa Falar.
Mestre Valdomiro (Valdomiro Tomé Pimenta – 1902 -   ), diretor-geral da bateria da Mangueira, conheceu o morro quando ali ainda existia uma vacaria como principal atração. Bem antes mesmo da implantação da Fábrica de Chapéus Mangueira, que muito favoreceu ao povoamento da encosta da Mangueira.
- O ritmo do samba não tinha essa organização de hoje. Eram as peças da macumba que a gente usava – registra Mestre Valdomiro – E, aproveitando que minha família, desde os meus avós, sempre gostou muito de comer carne de gato, o Cartola um dia me procurou:
“ O que você faz com o couro?” – “ Enterro – respondi. Não só para não apodrecer, como também para não criar complicação com os vizinhos, os donos dos gatos.”
Cartola ensinou-lhe então a tratar do couro e a usá-lo para fazer instrumentos, fixando a pele em diversas armações de madeira, na medida de cada peça de ritmo. Hoje, as fábricas produzem o instrumento pronto e com um elemento fundamental, que as baterias de escolas de samba conheceram somente no início da década de 50: as tarraxas para apertar o couro e afiná-lo. A fim de que produza o som ideal.
Xangozinho, diretor de harmonia da escola de samba Unidos de São Carlos, fala do tempo que precedeu a tarraxa como elemento modernizador dos instrumentos de ritmo.
- É claro que todo menino do Estácio adorava estar perto dos grandes sambistas, dos malandros famosos. Mas isso era difícil e, mais ainda, sair com eles para garantir essa aproximação, eu catava jornal, empilhava e amarrava. Ia atrás deles com aquela trouxa na cabeça. De repente, o som da bateria começava a ficar rouco e o grupo parava. Eu acendia os jornais e eles esquentavam o couro que, bem esticado, voltava a produzir um som. Assim, eu ganhava uma certa importância e, também, o direito de sair às ruas com os grandes sambistas.
Oscar Bigode (Oscar Pereira de Souza), veterano da Portela e seu ex-diretor de bateria, defende a ideia de que a bateria é o ponto fundamental da escola de samba.
- se eu sair pelas ruas com um grupo de ritmistas afinados, crio uma escola de samba, porque logo vai aparecer gente sambando, cantando alguma coisa e, lá para as tantas, alguém pega um cabo de vassoura, um pano e cria o estandarte.
Cada bateria tem sua marca própria, um estilo particular que identifica a escola à distância.
Tinguinha (Homero José dos Santos) com seu tarol, foi, juntamente com Lúcio Pato (o primeiro tocador de surdo da escola), responsável pela criação do estilo da Mangueira.
Ele descreve a marca de seu ritmo, partindo da dominação do surdo:
- é assim a marcação do surdo da Mangueira: quando arreia uma baqueta no surdo, todas as outras arreiam ao mesmo tempo. Enquanto as demais escolas fazem um balanço, nós não podemos.  Quando um surdo nosso bate ao contrário, manda-se parar.  A batida é uma só. A Mangueira sempre bota surdo de marcar. O surdo de marcação é aquele maior, o “205”. Depois vem o surdo-mor, menorzinho um pouco e, logo após, o surdo de repicar, que é menor ainda. Em seguida, aparecem tarol, caixa de guerra, tamborim, pandeiro, cuica, agogô, chocalho e reco-reco. Não admitimos pratos nem frigideiras na bateria da Mangueira.

FONTE: NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
ABRIL CULTURAL: 1979








ESCOLAS DE SAMBA - O LUXO VEM DE LONGE




A Escola de Samba Visinha Faladeira, com “s” mesmo e de curta vida: 1932-1940, conquistou o título de campeão do carnaval de 1937 com o enredo A Origem do Samba. Seu reduto de formação era a Saúde, bairro localizado entre o cais do porto e a Central do Brasil.
Desde 1935, a escola já espantava os assistentes apresentando  seus condutores de harmonia trazendo megafones-cornetas, para melhor orientar o canto dos componentes. E mais: gambiarras de petromax (conjunto de refletores feitos com lampiões a querosene) para iluminar a escola durante a apresentação;  o carro de pede-passagem elaborado em pasta; suas pastoras vestidas em lamê de 42 mil-réis o metro; fogos de artifício a fim de alertar o público para o desfile; e, para estupor das escolas pobres, sua comissão de frente – vestida de terno branco de flanela, gravata borboleta e cravo preto na lapela – desfilou em pé nos estribos de dez “landolés” ( como se chamavam então, os carros abertos, de luxo, usados nos casamentos pomposos).
E tanto fez a Visinha Faladeira que em 1939 acabou sendo eliminada do concurso oficial de samba por não apresentar enredo baseado em tema nacional: seu assunto, naquele ano ano, foi Branca de Neve e os Sete anões. No ano seguinte, a escola desfilou na Praça Onze e, ao se aproximar do júri, contornou o palanque em sinal de protesto.
Em 1947, um golpe de Estado na direção da Escola de Samba Prazer da Serrinha deixou seu todo-poderoso diretor Alfredo Costa com a escola quase vazia. Os dissidentes fundaram, então a Império Serrano, que surpreenderia a todos, inovando pelo luxo das fantasias e pelo tratamento mais refinado de seus carros alegóricos.
Muitos dos seus figurantes eram portuários e, graças a algumas facilidades profissionais, tinham acesso a produtos importados que colocavam a escola em condição de superioridade frente às concorrentes. Assim, a Império Serrano se fez tetracampeão, no período de 1948 a 1951. Sua primeira vitória quebrou a hegemonia mantida pela dupla Portela-Mangueira, vencedora dos carnavais  de 1939 a 1947. Tantas foram as pressões e as brigas de rua em Madureira, com os portelenses, que a Império conseguiu criar a Federação das Escolas de Samba. E fez mais: o governo municipal reconheceu a Federação como responsável pelo desfile oficial de sambistas. Assim, Portela e Mangueira, que se mantiveram fiéis à União Geral das Escolas de Samba, tiveram seu desfile esvaziado e sem subvenção oficial.
Então, a Império Serrano se fez absoluta. Até mesmo inovou na criação poética, pois o samba Tiradentes, de Mano Décio da Viola, Penteado e Stanislau Silva, se contrapôs aos das concorrentes: tinha doze versos curtos, em vez de quarenta ou cinquenta linhas, como era comum na época.
Somente em 1952 as escolas voltaram a se reunir sob uma só entidade, a União. Mas naquele ano a unificação não pode ser comemorada, por um fator alheio à política carnavalesca: choveu de tal forma que não foi possível a realização do desfile. Em 1953, a Portela reassumiu a liderança. No ano seguinte, a Mangueira fez as pazes com a vitória, cujo sabor não sentia há treze anos.
Em 1959, as escolas Unidos do Salgueiro,  Depois Eu digo,  e Azul e Branco uniram-se para forma a Acadêmicos do Salgueiro. Na direção estava um comerciante de peixes, Nélson de Andrade, que, por não saber tocar qualquer instrumento, sambar ou cantar, definiu-se com o neologismo “sambeiro”. Contudo, detinha um poder que seria decisivo para a história de seu núcleo e, até mesmo, para o destino das escolas de samba: sabia administrar pensando no futuro.
Coube a ele atrair para sua escola um valor que até  então os demais redutos de samba não haviam utilizado diretamente: o intelectual. Pelas mãos de Nelson de Andrade, foram trabalhar na Acadêmicos do Salgueiro, Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues ( artistas plásticos), Nilton Sá, Dirceu Nery e Mari Louise Nery ( pesquisadores).
- o grande papel exercido por esse grupo – registra Fernando Pamplona – não foi a introdução de elementos plásticos mais ricos, como as críticas iniciais eram azedas em afirmar. Sua grande importância foi demonstrar que a era “dipiana” estava acabada. A ditadura de Vargas, período em que o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) impôs a obrigatoriedade dos enredos extraído da História do Brasil, havia acabado, mas as escolas mantinham essa tradição, por puro comodismo.
Como os redutos do samba eram integrados, sobretudo por negros, Dirceu e Mari Louise Nery encontraram um enredo apropriado para a Salgueiro: O Quilombo dos Palmares.
- Então, o que ocorreu – continua Pamplona – foi que o negro, habituado a contar enredos onde os heróis eram brancos, pela primeira vez veio a exaltar elementos valorosos de sua própria história, desconhecida por eles próprios, porque nos bancos escolares o que se dedica a Zumbi dos Palmares são poucas e esvaziadas linhas.
Essa mesma temática do negro narrando sua história viria dar à Acadêmicos do Salgueiro seu primeiro título , com o enredo Chica Da Silva, em 1963.  Foi um choque para os críticos, e o clube fechado das eternas campeãs ( Portela, Mangueira, e Império Serrano). As maiores críticas voltaram-se contra um balé apresentado pelo grupo folclórico de Mercedes Baptista.
Fernando Pamplona define a razão  de a Acadêmicos do Salgueiro ter introduzido o balé, como parte da forma narrativa do enredo Chica da Silva:  - A apresentação da escola é um exercício dramático, onde as fantasias, as alegorias e o próprio canto narram uma história.  E o balé estava presente na história de Chica da Silva. As críticas foram terríveis, mas ninguém se lembrou de que o grupo de Mercedes Baptista era de negros. E recrutados onde? Nos redutos de samba, onde se podia ver o negro dançar. Portanto, era mais uma exaltação ao valor do negro, que a maioria dos sambistas desconhecia, por não ter acesso ao Teatro Municipal ou a qualquer outra sala onde se exibisse balé.
Quanto à introdução da riqueza, superpondo-se à representatividade do sambista, Fernando Pamplona explica:  - aí , sim, entrou um elemento de criatividade que foi inovador. O que fizemos foi utilizar melhor as cores da escola – vermelho e branco - , dando maior destaque ao branco, que oferecia melhor efeito, no contraste com o negro. Foi vestir melhor a bateria e incorporar sua fantasia à narrativa do enredo. Aliás, aqui deve-se deslindar um segredo: a bateria do Salgueiro pareceu a todos haver crescido, melhorado. Isso deveu-se a um pequeno truque, a introdução de microfones miniaturizados na cuíca – cujo som desaparecia, normalmente, quando juntado ao grande número de peças que compõem uma bateria de grande escola.
Do grupo de artistas plásticos formados na Acadêmicos do Salgueiro, saiu também João Jorge Trinta ( o Joãozinho Trinta), que levou a Beija-Flor, aos trinta anos de existência, a arrebatar seu primeiro título. E foi com um tema inteiramente inusitado – Sonhar com Rei dá Leão – que aquela “escolinha”, lutando entre o segundo e terceiro grupos, chegou ao fechado clube das campeãs, em 1976. No ano seguinte, com o tema Vovó e o Rei da Saturnália na Corte Egipciana, Joãozinho Trinta repetia o feito, em  1978, chegava ao tricampeonato com o enredo Criação do Mundo segundo a tradição Nagô.
Em 1979, Arlindo Rodrigues, também da “escola salgueirense”, deu à Mocidade Independente de Padre Miguel seu primeiro título, ao longo de trinta anos de apresentações, com um tema tradicionalista: Descobrimento do Brasil.

FONTE: NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
ABRIL CULTURAL - 1979




ESCOLAS DE SAMBA - JULGAMENTO DOS QUESITOS




DESFILE DAS ESCOLAS DE SAMBA – JULGAMENTO

Em toda a história dos desfiles, raros resultados trouxeram satisfação e concordância entre os concorrentes. Por isso, a escolha do corpo de jurados tem se tornado uma tarefa cada vez mais difícil, porque sempre existiram juízes inteiramente despreparados para julgar o que viam num desfile. Como exemplo, o caso da jurada que deu nota 2 ao samba-enredo Rio Grande do Sul na festa do Preto Forro, da Unidos de São Carlos, porque a letra registrava o folclore “ você me chamou de moleque/ Moleque é tu”. Ignorando que a transcrição na íntegra do achado folclórico fora um dos principais objetivos do samba, a jurada se escandalizara com aquela “concordância”.
Outro exemplo de despreparo flagrante é o da jurada que em 1965 deu nota 6 ao mestre-sala e 8 à porta-bandeira da Imperatriz Leopoldinense. Só que a escola não havia apresentado nenhum dos dois. Para impedir calamidades como essas, os juízes dos concursos de escolas de samba do carnaval carioca recebem um bê-a-bá dos quesitos a serem julgados. Ao todo, são nove:

ENREDO

O desfile de escolas de samba tem sido comparado a uma ópera, pois também utiliza o canto como meio de expressão do texto. O enredo se desenvolve na avenida, com música, fantasias e alegorias. A rigor, sua qualidade não entra em julgamento, mas sim a maneira como se desenvolve. Há porém uma exigência: o tema deve ser nacional e jamais ter conotações comerciais.
A partir da escolha do enredo é que se iniciam os preparativos para o desfile. Até a década de 50, predominaram os temas baseados na História do Brasil, tal como sido contada pelos brancos. Em 1959, porém descobriu-se um filão praticamente inesgotável: o negro. Esse tema, lançado pela Salgueiro, foi de imediato adotado por outras escolas. Alimentando-se da cultura popular, os desfiles reviveram lendas e heróis quase esquecidos. Em 1963, ainda por iniciativa da Salgueiro, a personagem feminina acabou recebendo seu quinhão nessa redescoberta de valores nacionais. Vieram Chica da Silva, Dona Beja, Zaquia Jorge e Carmen Miranda. Em 1974, Joãozinho Trinta, também da Salgueiro, aventurou-se pelas histórias infantis, de onde retirou o enredo  O REI DA FRANÇA NA ILHA DA ASSOMBRAÇÃO. Em 1976 – quando predominavam na avenida variações sobre temas religiosos afro-brasileiros -, o mesmo Joãozinho Trinta ( então na Beija-Flor) surpreendeu o público e jurados com outra inovação: homenageava o jogo do bicho. Ganhou o título nesse ano, mantendo-o nos dois seguintes. Já então enveredava pelo caminho do fantástico – tendência que vem caracterizando os desfiles cariocas no final da década de 70.

SAMBA-ENREDO

O regulamento a respeito deste quesito é bastante flexível, exigindo apenas que o samba se atenha à essência do tema. Até meados da década de 40, a desvinculação era total; na de 50, porém, o samba teve por obrigação descrever todo o enredo, o que transformou a tarefa dos compositores num intricado (e por vezes infeliz) malabarismo verbal. Nos anos 60, essa rigidez desapareceu, mantendo-se apenas a vinculação ao essencial. Isso possibilitou uma difusão maior do samba-enredo, que passou a ser cantado pelo povo nas folias de rua e chegou até os salões. Segundo Sérgio Cabral, o bom samba-enredo é aquele que, além de se revelar bonito e adequado ao tema, não tem erros (como a tônica da palavra se contrapondo à tônica da música) nem descompassos.


HARMONIA

Este quesito exige, em primeiro lugar, que canto e ritmo sejam contínuos e inalterados. Existem algumas situações capazes de prejudicar a harmonia ou mesmo aniquilar um desfile: é quando as alas “atravessam” o canto ( um setor da escola canta uma estrofe enquanto outro já está na estrofe seguinte) ou “atravessam” o ritmo (desajuste entre bateria e canto).
Outro momento perigoso é quando um destaque excessivamente vaidoso ou um malabarista eufórico impede o avanço das alas. Para que isso não aconteça, existem os meticulosos e severos diretores de harmonia e alas.

COMISSÃO DE FRENTE

É o cartão de visita das escolas, responsável por sua apresentação.



MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Originalmente figuras importantes dos blocos e ranchos, o mestre-sala e a porta-bandeira passaram a integrar as escolas de samba a partir de 1928. Sua evolução malemolente vem da época dos blocos que , ao se cruzarem na rua, tentavam arrebatar as bandeiras uns dos outros. Então, em meio aos gestos cerimoniosos, o mestre-sala realizava um hábil jogo de corpo para defender sua porta-bandeira. E assustava os atacantes mais afoitos fazendo rebrilhar lâminas engastadas entre as plumas de seu leque. Afora tais entreveros, seu desempenho foi discreto até a década de 30: ao mestre-sala eram proibidos saltos e acrobacias, enquanto a porta-bandeira – sempre de baiana – ainda não rodopiava, limitando-se a portar com elegância a bandeira de sua escola. Mas o rigor diminuiu, acarretando, por vezes malabarismos exagerados. Alguns pares, no entanto, souberam atingir a medida exata, como Hélio Laurindo da Silva (Delegado) e Neide da Mangueira, os grandes favoritos da avenida.  Segundo Delegado, para um bom mestre-sala são essenciais as seguintes qualidades: saber balé, ter preparo físico e ser muito bem-educado.

FANTASIA

Assim como a alegoria e o adereço, as fantasias devem ilustrar o enredo. Há uma hierarquia a ser respeitada: as fantasias mais importantes são as de porta-bandeira, mestre-sala e da comissão de frente, que têm notas próprias. No entanto, desde o início da década de 60, surgiu a figura do destaque – fantasia extremamente luxuosa portada por alguém rico ou famoso. No início predominavam as fantasias “nobres”, imperando  então os mantos, pedrarias e arminhos. Aos poucos a roupa foi escasseando, até se chegar ao reinado do biquíni, enquanto aumentavam os arranjos na cabeça, que é o que mais aparece. Como a visão do conjunto prevalece sobre a vontade individual, a ação do figurinista esbarram em susceptibilidades e preconceitos, que tornam sua tarefa complexa e delicada – porque a fantasia é muito importante para o sambista; mais do que um quesito, ela é a possibilidade de transfiguração. Uma ilusão de poder a que tampouco escapam os destaques.



EVOLUÇÃO

Um dos principais responsáveis pelo desempenho de uma escola de samba na avenida, o diretor de harmonia deve dispor as alas e vigiar sua evolução, adequar a dança ao canto e ao ritmo. Os diretores de alas dividem com ele essa responsabilidade, nem que seja por meio de palavrões e, medida extrema, usando um bastão com que cutucam os passistas excessivamente entusiasmados com a própria evolução. Devem evitar a todo custo os buracos – espaços de 4 ou 5 metros em branco – e manter a agilidade desse caudal humano que atinge seu ponto máximo de movimento e força ao desembocar diante da cabina dos jurados.

BATERIA

É da bateria que vem a  pulsação do desfile. Nela, cada instrumento tem sua função: o surdo marcador é a base; o surdo de repique dá o contraponto e completa o ritmo de sustentação; o repinique, as caixas e taróis desdobram o ritmo e criam as variações. A esses instrumentos básicos foram acrescentados outros, com o passar do tempo: cuícas, tamborins, chocalhos, agogôs, reco-recos, frigideiras, pratos de louça e de banda. Outro elemento fundamental da bateria é o diretor, que deve ter ouvido impecável  e indiscutível autoridade. Cada escola tem sua batida, embora já esteja ocorrendo uma descaracterização – isso começou quando Mestre André introduziu inovações na bateria da Padre Miguel (paradinhas e variação de cadência), logo adotadas pelas outras escolas. A segunda causa da descaracterização é o tempo obrigatório de desfile que acelerou a cadência rítmica das baterias e praticamente as uniformizou.

ALEGORIA E ADEREÇO

Funcionam como complemento do enredo. Mais que luxo e riqueza, o que conta é o impacto. Quando as escolas entram na avenida, tudo reluz: desde os sambistas até os mais rebuscados carros alegóricos. Para estes, há uma limitação de até quatro com , no máximo, 6 metros de altura e 5 de largura, por escola. Não há número fixo para carros menores. Excelente recurso para preencher espaços, as alegorias de mão, por sua vez, têm sido profusamente utilizadas.


“QUEM NÃO GOSTA DE SAMBA,
BOM SUJEITO NÃO É...
É RUIM DA CABEÇA
OU DOENTE DOS PÉS”
Dorival Caymmi


FONTE: NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
ABRIL CULTURAL - 1979

ESCOLAS DE SAMBA - RIO DE JANEIRO – ATÉ A DÉCADA DE 70





GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA
ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA

“Chega de demanda, chega./ com esse time, temos que ganhar./Somos a Estação Primeira./ Salve o Morro da Mangueira”.
Foi com esses versos singelos mas cheios de autoconfiança, cantados por um grupo de pastoras, ritmista e passistas, que a Estação Primeira de Mangueira saiu às rua pela primeira vez, no carnaval de 1929.
Não eram mais que sessenta pessoas, conta o autor do samba, Angenor de Oliveira, o CARTOLA. Mas provocaram admiração por onde passavam.
A escola havia sido criada a 28 de abril do ano anterior (ou, segundo Sergio Cabral, em seu livro As Escolas de Samba, em 30 de abril de 1929), resultado da fusão dos blocos de samba dos Arengueiros, de Tia Tomázia, de Mestre Candinho e da Tia Fé, adotando as cores verde e rosa por sugestão de Cartola.
Seus integrantes principais, além de Cartola são Nélson Cavaquinho (também compositor), Delegado e Neide (o mais famoso par de mestre-sala e porta-bandeira, campeões da avenida).
Em 1930, com pouco mais de sessenta componentes, a Mangueira desfilou pela primeira vez. Sagrou-se campeã e manteve o título até 1934, reconquistando-o em 1940 1949, 1950, 1954, 1960, 1961, 1967, 1968 e 1973. Uma das grandes vedetes do carnaval carioca, a Mangueira conta com mais de 2500 componentes (1979).


GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA PORTELA

Da fusão de vários blocos que saíam de Oswaldo Cruz, bairro da Zona Norte, surgiu em 1923 o Bloco Vai como Pode. Em 1935 venceu o primeiro desfile oficial do Rio de Janeiro, adotando então o nome de Portela e as cores azul e branco. Durante muito tempo a Portela foi uma das mais fortes concorrentes, vencendo dezessete desfiles, nos carnavais de 1939, 1941 a  1947, 1951, 1953, 1957 a 1960, 1962, 1964, 1966 e 1970.
Entre os elementos de maior destaque que passaram por ela  estão compositores como Paulinho da Viola, Zé Kéti e Candeia, além de de passistas famosos como Tijolo e Nega Pelé.
A Portela  inovou a bateria acrescentando-lhe caixa-surda e reco-reco.  E foi ainda por iniciativa de um dos seus fundadores Paulo da Portela, que se adotou o samba-enredo (em 1931) e se uniformizou a comissão de frente. No entanto, o maior orgulho da Portela é ter sido vencedora do desfile de 1953, com nota dez em todos os quesitos. Um feito ainda não repetido por nenhuma escola de samba.


       
GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA IMPÉRIO SERRANO

Fundada em 1947 por grupos dissidentes das escolas de samba Prazer da Serrinha e Portela, passou a rivalizar com elas sobretudo porque dividiam entre os moradores de Madureira. Seu primeiro desfile em 1948, foi patrocinado pela recém-criada Federação das Escolas de Samba – que surgiu de uma cisão na União Geral das Escolas de Samba e teve o beneplácito da prefeitura. Nesse Desfile, a Império Serrano sagrou-se campeã. Em 1950, dividiu o título com a Mangueira, que desfilou sob o patrocínio da União. Repetiu a dose em 1951. Em 1955, já reagrupada à União, a Império Serrano conseguiu romper o ciclo de vitórias até então exclusivo da Mangueira e da Portela, obtendo o primeiro lugar, que manteve em 1956. Em 1960 teve empate múltiplo com Portela, Mangueira e Salgueiro,  e foi novamente campeã em 1972. Até 1974 não se classificara abaixo do quarto lugar: no desfile de 1978, porém, seu contingente excessivo (5 mil pessoas)  resultou num aglomerado de difícil controle, provocando a sua queda para as escolas do II grupo. Em 1979 obteve o segundo lugar entre as escolas de sua nova categoria.


GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA BEIJA-FLOR

Fundada em 1948, em Nilópolis, município do Estado do Rio, em 1954, já desfilava entre as escolas do II grupo. Em 1955 disputava o campeonato com as do I, sendo a primeira dentre as pequenas a competir com as escolas de porte de Mangueira, Salgueiro, Portela e Império Serrano. Após um terceiro lugar em 1962, a Beija-Flor voltou para o II grupo em 1963 e para o III no ano seguinte. Dez anos depois, recuperava a sua posição entre as escolas do II grupo e, em 1976,  vencia o desfile das grandes escolas do I grupo. Manteve esse título  por mais dois anos seguidos e classificou-se em segundo lugar  em 1979. Suas cores são azul e branco, as mesmas do Bloco Irineu Perna-de-Pau, que lhe deu origem.

ESCOLA DE SAMBA ACADÊMICOS DO SALGUEIRO

Em 1953 fundiram-se três escolas do Morro do Salgueiro, no bairro da Tijuca – Depois eu Digo, Azul e Branco, e Unidos do Salgueiro -, dando origem à Acadêmicos do Salgueiro.
Identificando-se pelas cores  vermelho e branco, com oitocentos figurantes, a nova escola arrebatou os maiores aplausos da avenida em seu primeiro desfile em 1954, sem, no entanto, chegar a uma classificação significativa. Em 1960 conquistou seu primeiro campeonato – divido com mais quatro escolas: Mangueira, Portela, Império Serrano e Unidos da Capela. Foi, depois, vencedora nos desfiles de 1963, 1965, 1969,1971,1974 e 1975. É a menor e mais nova das chamadas quatro grandes ( as outras são Mangueira, Portela e Império Serrano) que sistematicamente arrebatavam o título de campeã. Considerada uma escola inovadora, modificou a temática dos sambas-enredo acrescentando-lhes novos motivos, como semiesquecidos heróis negros ( Quilombo dos Palmares, em 1960) e valorizando personagens femininas da história do país ( com Chica da Silva, em 1963).

       
ESCOLA DE SAMBA MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL


Fundada em 1957, dois anos depois já se incluía entre as escolas de samba do grupo 1. Logo se destacou por sua bateria, na época com apenas 27 elementos, sob a direção de Mestre André. Chegando a trezentos integrantes, essa bateria recebeu nota dez em todos os desfiles, até 1975, quando cometeu o maior pecado: atravessou o samba. Mas, recuperou-se rapidamente. Em 1979, com um samba-enredo tradicional – Descobrimento do Brasil -, a escola conquistou o primeiro lugar.




GRÊMIO RECREATIVO DE ARTE NEGRA E ESCOLA DE SAMBA QUILOMBO

Foi fundada a 8 de dezembro de 1975 por Antônio Candeia Filho, que capitalizou o descontentamento de sambistas como Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Élton Medeiros e outros e relação a suas respectivas escolas de samba. Cada vez mais distantes de seus objetivos iniciais, muitas escolas foram transformando seus desfiles em superespetáculos que visavam mais o gosto da plateia (pagante) que a manifestação lúdica dos participantes. Assim, a Quilombo optou pela cultura negra, pelo samba mais autêntico e pela defesa das manifestações que se fundiram em sua formação: jongo, capoeira, lundu, caxambu, e maracatu. Segundo seus integrantes, a competição foi uma das principais causas do desvirtuamento das escolas e assim, embora desfile desde 1977, a Quilombo não se inclui entre as concorrentes.

       
FONTE: NOVA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
ABRIL CULTURAL – 1979



ESCOLAS DE SAMBA DE SÃO PAULO – ATÉ A DÉCADA DE 70





Fenômeno de origem carioca, as escolas de samba expandiram-se por todas as principais cidades brasileiras, invadindo mesmo os carnavais de acentuada coloração local, como o baiano e o pernambucano.
Em São Paulo, o desfile das escolas vem ganhando cada vez mais espaço nas avenidas. Antes, o forte da folia carnavalesca nas ruas paulistanas eram os cordões: CAMISA VERDE E BRANCO, CAMPOS ELÍSEOS, SOM DE CRISTAL. Vinham todos de uma velha tradição carnavalesca, com um samba diferente do carioca – segundo Plinio Marcos, “mais puxado ao batuque, ao ritmo de trabalho, nascido nas fazendas de café, e depois, espremido nos porões, ao contrário ainda do carioca, que se fez no morro, sempre a céu aberto.”
Ofuscadas pelos cordões, surgiram a partir da década de 20 algumas escolas de samba, como a PRIMEIRA  e a LAVAPÉS. Em 1967, o carnaval de rua foi oficializado, recebendo subvenção do governo. E esse novo contexto privilegiou as escolas – as únicas a receberem os incentivos governamentais. Os cordões começaram a desaparecer, perdidos no desânimo ou transformados em escolas.


ESCOLA DE SAMBA LAVAPÉS

Fundada em 1936, é a mais antiga escola de samba paulistana, segundo registros oficiais. Suas cores são vermelho, branco, verde e azul. Foi catorze vezes campeã nos desfiles realizados entre 1936 e 1956. De suas alas saíram os fundadores de várias escolas como a Unidos do Peruche e a Império do Cambuci. Mas esse esplendor começou a diminuir no final da década de 60 e a Lavapés entrou em processo de decadência.

  



GRÊMIO RECREATIVO E ESCOLA DE SAMBA MOCIDADE CAMISA VERDE E BRANCO


Fundada em 1914 como Grupo Carnavalesco da Barra Funda, foi um dos mais conhecidos cordões paulistanos. Essa fama, aliás, chegava até a elite econômica da Avenida Paulista, que convidava o grupo para animar seus requintados bailes carnavalescos. O Grupo Carnavalesco da Barra Funda formava um cordão bem organizado e uma de suas principais exigências era o uso da camisa verde e calça branca por seus integrantes: isso motivou a adoção de novo nome em 1921: Grêmio Camisa Verde. Assim conhecido, o cordão da Barra Funda existiu até 1936, quando desentendimentos internos causaram sua extinção. Foi reorganizado por Inocêncio Tobias (praticamente seu presidente vitalício) em 1953, registrando-se então sob o nome CAMISA VERDE E BRANCO, porque a forma anterior (Camisa Verde) também se referia ao uniforme dos integralistas. Três vezes campeão em desfiles de cordões carnavalescos  (1968, 1969, 1971), segundo colocado no carnaval de 1970,  o Camisa Verde e Branco transformou-se em escola em 1972, ocupando o terceiro lugar no desfile dessa categoria. Em 1973, a Camisa Verde e Branco sagrou-se vice-campeã no desfile da avenida, e nos quatro anos seguintes foi campeã; retomou esse título em 1979, após um segundo lugar em 1978.


GRÊMIO RECREATIVO CULTURAL ESCOLA DE SAMBA VAI-VAI

Foi muito popular como bloco carnavalesco, desde sua criação, em 1930. Saía do velho bairro do Bexiga, identificando-se pelo refrão:
“Quem vive aborrecido se distrai
No grupo Carnavalesco Vai-Vai”
Em 1972, transformou-se em escola de samba, adotando as cores branco e preto; em 1979, incluiu o amarelo. Vice-campeã nos desfiles do Iº grupo e 1972, 1974, 1976,1977, conseguiu o campeonato em 1978.




GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA NENÊ DA VILA
MATILDE


Criada em 1949 por Nenê ( Alberto Alves da Silva), que aliás tem sido seu presidente desde a sua fundação. Suas cores são o azul e branco. A Escola alcançou um tricampeonato vencendo os desfiles de 1968,1969, 1970, no entanto suas posições foram medianas, exceto os terceiros lugares em 1971 e 1979.



ESCOLA DE SAMBA MOCIDADE ALEGRE

Fundada como cordão carnavalesco em 1968, no Bairro do Limão, desfilou em 1969, surpreendendo público e júri com sua apresentação e obtendo o prêmio das escolas do III grupo. Em 1970, já transformada em escola de samba, oficializou as cores vermelho, marrom e verde e foi campeã do grupo II. Passando então para o  grupo I, tornou a vencer no desfile do ano seguinte. Conseguiu manter esse título até 1973, chegando assim ao tricampeonato. Nos dois anos seguintes ficou com a terceira colocação e em 1976 foi para a quarta; em 1977 e 1978 subiu ao terceiro posto; em 1979, conseguiu alcançar o título de vice-campeã.



SOCIEDADE ROSAS DE OURO

Fundada em 1970, em Vila Brasilândia, três anos depois sagrava-se campeã das escolas do III Grupo; em 1974 vencia as escolas do II Grupo, e em 1975, chega a vice-campeã do I. Em 1976 passou para o terceiro lugar e ficou abaixo dessa colocação nos três anos seguintes. Embora suburbana e de origem recente, a Rosas de Ouro é uma das mais fortes concorrentes do desfile paulistano. Tem, aliás, o privilégio do espaço: é dona de uma das maiores quadras de ensaio do  país.