terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ESCOLAS DE SAMBA – ORIGENS


ORIGENS

Nos carnavais da década de 20, a pobreza e a malandragem cariocas reuniam-se na Praça Onze para sambar. Dessa alegria, a curto prazo foram nascendo as escolas de samba, que, a partir de 1947, ganharam as avenidas, grandes palanques e novos espectadores. A Praça Onze deu caminho à Avenida Presidente Vargas, onde passaram a desfilar as grandes escolas. Nas imediações da antiga praça, resistiam as pequenas, relegadas ao III Grupo. Ainda se podia ouvir na segunda-feira de carnaval, o repique do samba, o baticum de magras baterias. Finalmente, o grande desfile do carnaval carioca, já na década de 70, trocou a Presidente Vargas pela Avenida Marquês de Sapucaí, desembocando onde fora a Praça Onze. É como se voltassem para ela, a cada ano. Os restos de um grande sonho consumido.

A PRIMEIRA ESCOLA DE SAMBA

DEIXA FALAR, do bairro do Estácio de Sá, foi a primeira escola de samba e deu origem à forma como o samba é cantado pelas escolas.
Fundada em 1928 por Ismael Silva, Nilton Bastos, Balaco, Brancura, Bide e outros “bambas”, a Deixa Falar teve vida curta. Em 1933 juntava-se ao Bloco União das Cores, dando origem ao Bloco Carnavalesco União do Estácio de Sá.



O CANTO PROFANO DE LINDAS MULATAS

Nos demais redutos de samba do Rio, desde meados da década de 20, vinha ocorrendo a fusão dos blocos de samba, que se multiplicavam mais notadamente na Favela, na área da Freguesia do Irajá ( do Engenho de Dentro até Bangu), em Mangueira e no Estácio.
E todos os blocos traziam em comum alguns traços fundamentais: a dolência no canto, a coreografia de andamento do grupo em forma de procissão e o ritmo animado por instrumentos de corda e de percussão de fácil domínio.
Essas marcas estavam presentes também nos ranchos – que polarizavam as camadas pobres e remediadas da população carioca antes da supremacia das escolas de samba – e nas “taieiras”, um séquito religioso que saía às ruas nas festas de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário. Nas taieiras confundiam-se religiosidade e o canto profano das “lindas mulatas, vestidas de saias brancas, entremeadas de rendas, de camisas finíssimas e de elevado preço”, que Melo Morais Filho viu no século XIX e registrou em sua obra Festas e tradições Populares do Brasil.
É  do compositor Cartola a lembrança de que, nos primeiros anos da década de 20, os agrupamentos de sambistas tinham dono: em geral, um valente que liderava os demais. – No Morro da Mangueira – registra Cartola -, o dono do samba era um tal de Boco. De certa feita, um amigo desse Boco convidou-o a levar o samba de Mangueira a Botafogo. Fomos a pé, cantando e batendo nossos instrumentos, passando praticamente por seis bairros. De quando em vez, parava-se em frente a alguma casa e nos exibíamos. Das janelas e em torno de nós pessoas atiravam moedas, que a mulher do tal Boco ia guardando num saco de pano, assim como fazem as folias de reis. Quando chegamos, afinal, em Botafogo, uma senhora nos recebeu na porta do homem do convite, informando que ele não estava. Já estávamos caindo de fome e aquilo, foi um choque. A gente ali, parados, sem ação, decepcionados. De repente, a mulher se apiedou de nós, olhou para um pé de carambola e disse: “quem quiser pode apanhar”. Todo mundo se fartou. Antes de voltarmos ao morro, o Boco, a mulher dele o saco de dinheiro da coleta haviam desaparecido.
Como havia perseguição policial aos sambistas (genericamente considerados maus elementos), era nos morros, em terreiros de modestas moradias, que os grupos de samba contavam com maior liberdade para realizar suas festas. À distância, o som dos instrumentos era inaudível, e o difícil acesso intimidava a ação dos repressores.
Juvenal Lopes – o conhecido Nanal, do Estácio, por várias vezes presidente da Mangueira – registra que alguns delegados de polícia chegaram a se notabilizar pelo “carrancismo com que se especializavam na perseguição dos sambistas”. Conta Nanal: - um deles, o delegado do 23º distrito, Abelardo Luz, chegava a tais extremos que até lhe dediquei um samba, cujos versos dizem:
“credo em cruz!/ aí vem o delegado/Abelardo da Luz./temos pão-de-ló,/ temos pão com manteiga./ Você sai do samba./ já vou minha nega”.
Relembra ainda Nanal que, na mesma noite em que tirou esse samba,  na casa de Francelino, no Morro do Urubu ( Madureira), o local da festa foi cercado pelo próprio Abelardo da Luz, que os levou a bengaladas, morro abaixo, até a delegacia, onde foram obrigados a cantar samba sem parar.  – Se alguém silenciasse, era pá-pá-pá, bengalada no lombo.
No Estácio, a excelente memória de Tia Lourdes (Lourdes Medeiros, nascida na primeira década do século XX), lhe permite falar de quatro terreiros de samba, no Morro de São Carlos; o de Tia Atanásia, o de Tia Miquimba, o de Dona Mariazinha e o de Carestia da Prata, o maior valente do morro.
- Ainda não se saía com samba nas ruas – conta ela. – Era tudo realizado lá no morros mesmo.
Dona Sinhá ( Maria Ramos da Conceição), uma das mais antigas baianas do Estácio, descreve as festas e a limitações do terreiro de uma dessas tias, a Tia Miquimba:
- era um quintal de 3 metros por 4, no alto do morro, cercado por um baldrame de madeira. O ritmo era feito com os instrumentos da macumba dela. As mocinhas eram muito protegidas pela severidade da dona da casa e do seu homem. Dançava-se em roda e aos casais, quando aparecia cabaça e cavaquinho, para dar mais harmonia. A dona da casa servia canjica, em caneca de metal, para forrar nosso estômago.
Em outro reduto de samba, o Engenho de Dentro, no Rio da década de 20, o quadro pouco se diferenciava. José Espineli ( ou Zé Espinguela), conhecido macumbeiro, organizava festas:
- Ele morava no Engenho de Dentro – conta Cartola -, numa casa onde se realizava roda de samba na frente, macumba na sala e caxambu nos fundos.
Mestre Dengo ( Ariodantino Vieira, nascido em 1908), compositor da Mocidade Independente de Padre Miguel, dá mais um retrato desse período. Ele participou das festas realizadas no quintal da casa de Napoleão do Nascimento (pai do Natal da Portela), em Oswaldo Cruz.
Ali, em 11 de abril de 1923, se fundaria a Vai Como Pode, hoje Portela. – O ambiente era muito carregado - lembra Mestre Dengo -, às vezes, ganhava tamanha tensão que ninguém respeitava ninguém. As figuras mais acatadas eram Nonô Sapateador, Manoel Bam-Bam-Bam e Paulo da Portela. Além do samba, a brincadeira preferida era o jogo da perna, na roda de samba. Tirava-se um mote, como no caxambu, e ficava-se repetindo seus dois ou quatro versinhos, pobres de letra e, às vezes, sem rima. Um dos participantes ia para o meio da roda e se plantava ali, ereto como um poste. Antes, porém, sambava, fazia salamaleques, e tocava, com os joelhos e o pé, as pernas de um companheiro de roda. Esse, o desafiado, passava então a sapatear e gingar em torno do desafiante plantado até que, num momento de surpresa, mandava a perna. Se houvesse queda, ele desafiava um outro companheiro e plantava pra ele. Certa madrugada apareceu no terreiro do Napoleão, um sujeito mascarado, vestido de mulher, com a saia amarrada às pernas. Era imbatível na pernada. Quem plantasse, caía.
- No canto de improviso – prossegue Mestre Dengo -, surgiu um partido-alto muito alegre, conhecido até nos dias de hoje:
“deixa amanhecer,/ para conhecer quem é./ Deixa amanhecer;/para conhecer quem é”. Realmente, ao amanhecer, a figura mascarada se revelou. Era o Roxo da Favela, um capoeirista muito valente e respeitado.

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